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Foto para o livro Cartas ao Colégio Santa Maria

“Colégio Santa Maria foi um rio chamado amor” , escreve Luiz Orestes Gavazzoni

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Curitiba, 1960

Entrei no Colégio Santa Maria no primeiro ano primário. Quantas novidades. Um mundo novo a descobrir. Minha primeira descoberta, foi a querida professora Samira. Gentil, carinhosa, afetuosa. Minha primeira professora. Logo fui fazendo amigos, tantos, que seria injusto nomeá-los, por me olvidar de algum deles.

No primeiro mês, já teve eleição para representante da classe. Perdi por um voto, o meu, votei no Domingos que foi eleito. A função do Domingos, era sair da classe em horários pré-determinados, para bater o sino, que ficava no prédio novo, ao lado da capela, no segundo andar, para avisar o colégio todo, que era hora do recreio. Confesso que me arrependi em ter votado nele.

Primário 

Tive como professora no primeiro ano, a professora Samira, no segundo e terceiro, a professora Raquel, e no quarto ano o Irmão Tertuliano. Nunca fui bom aluno, e aos poucos fui me tornando uma ovelha negra no rebanho Marista.

Sempre as compras do material escolar, eram feitas na livraria do Colégio, que ficava no térreo do prédio novo.

A cantina, tinha gosto de festa. Ficava embaixo da capela, no térreo também. Filas enormes para comprar um sonho. Uma bagunça organizada.

Meu Pai (ex-aluno) era muito amigo dos Irmãos capitaneados pelo Irmão João Tissi, diretor do colégio.  Aos domingos me levava para tomar café da manhã com eles no quarto andar do prédio novo, território proibido para qualquer aluno, assim como o elevador também. Só podíamos subir até o terceiro andar pelas escadas, onde ficavam as salas do Científico. 

Também me levava, em algumas tardes de domingo, para eu ver ele jogar bola com os Irmãos. No começo jogavam com as batinas arregaçadas. E sabem, eram bons de bola, sabiam jogar.

O anfiteatro, ficava no segundo andar, ao lado da Marechal Deodoro. Podia-se acessá-lo pelo corredor das salas do ginásio. Antes de eu entrar no Colégio Santa Maria, eles ofereciam cursos de teatro neste local. Uma pena, acredito que me sairia bem. Era um ambiente muito gostoso que agradava a todos. Depois virou um cinema, independente do Colégio. Acho que os Irmãos arrendaram o espaço.

Passeio na Chácara. Os Irmãos tinham uma chácara linda, atrás da Estância Ouro Fino. Tinha que se pegar a estrada que leva a Almirante Tamandaré. Que festa! Ônibus lotado, com o Irmão Ruppel dirigindo. Brincávamos para valer. Todos soltos, com muita liberdade. Eu só tinha medo do lago, pois tinham me contado que várias pessoas morreram afogadas. Depois fui saber que era verdade.

Festa Junina. Acredito que o pátio do Colégio Santa Maria, foi o primeiro a ter iluminação artificial. Jogava-se bola numa boa. Mas voltando a prosa, as Festas Juninas, eram festas mesmo. Fogueira no meio do pátio, pau de sebo, eleição da rainha da festa e a presença dos pais dos alunos e de seus irmãos. Doces, quadrilha, enfim, tudo que tem direito numa festa Junina. Tempos felizes!

Primeira Comunhão. Quantos não a fizeram no colégio. Foi muito gratificante. Quando saímos da Capela, tirávamos uma foto na escada do prédio novo, que leva ao pátio. Irmão Ruppel fotografava, aliás, ele era o faz tudo do Colégio. Inclusive o apelidaram de Irmão Camelo.

Sabatinas. Sim, tínhamos aula aos sábados. Ninguém morreu por ter aula nesse dia. Imagine se fosse hoje! Nos sábados tínhamos as provas, por isso, chamadas sabatinas e as vezes, recapitulação das matérias dadas na semana. Mas as provas, ou qualquer trabalho escrito, tinha sempre que começar com as iniciais, VJMJ (Viva Jesus Maria José).

Batalha Campal. Em um evento de confraternização, foi realizado uma partida de futebol, entre Colégio Santa Maria x Colégio Arquidiocesano de São Paulo. Foi uma partida a noite e como tinha dito, o pátio do colégio tinha iluminação artificial e se transformava em uma cancha de areia. Dava para jogar bola a noite numa boa. Abraços no meio de campo, troca de flâmulas, uma beleza.

Jogo Pegado. Vinte minutos do primeiro tempo, uma entrada violenta, em um dos nossos jogadores. Por quê! O pau quebrou. Todos os jogadores brigando. Olha, acredito que até os Irmãos entraram na porrada. Uma noite inesquecível!

Reprovado. Para entrar no Ginásio, tinha que fazer um exame de admissão. Como contei, não era bom aluno. Mas fui bem no exame, só que em matemática, tirei a nota 4.5. Para passar era necessário a nota 5. Meu pai ficou louco da vida, não comigo, mas com os Irmãos. Esbravejava –“ Tomo café todos os Domingos com eles, dou madeira há quatro anos (meu pai era madeireiro), jogo bola toda semana, sou amigo da cúpula Marista, e reprovam meu filho por 0.5 pontos). Mas, o Irmão João Tissi, diretor, era rigoroso nessa questão de estudo, não tinha essa de “ Toma lá, dá cá ”. Para acalma-lo, deram a ele uma comenda, ou algo do gênero.

5@ Série. Podia-se dizer que era um tipo de “Limbo”. Parecia que nem fazíamos parte do colégio. Fiquei triste, pois as amizades conquistadas durante quatro anos, evaporaram, ou melhor, foram desconectadas. Irmão Tertuliano continuou como professor titular. Mas, logo fiz novos amigos. Tínhamos algo em comum, os excluídos.

Feira de Ciências. O Santa Maria sempre teve uma rivalidade com o Colégio Estadual. Quem fazia a Feira, era o Colégio Estadual. Meu grande amigo Zanicotti e eu resolvemos fazer um trabalho para apresentar no evento. Cada colégio de Curitiba, enviava seus melhores trabalhos.

Saímos com uma máquina fotográfica, e registramos todos os bordéis do centro de Curitiba. Fotografamos as “ Moças “ e fizemos entrevistas. Ficou um trabalho maravilhoso. Tínhamos doze anos. Se não me engano, o título da obra era “As moças do centro da cidade “.

Apresentamos esse trabalho para a comissão de Ciências do Santa Maria. Vocês podem imaginar a cara que eles fizeram. Teve uma professora que chegou a chamar de indecente. Saímos com a cabeça baixa, desiludidos, mas, tínhamos um professor de Português, que era maravilhoso, presidente do comitê de Ciências que quando todos foram embora nos chamou e disse: “ Olha, o trabalho de vocês é o melhor entre todos feitos, mas não posso apresentá-lo, os Irmãos reprovariam “. Parabéns aos dois.

Ah! Foi melhor que ganhar o primeiro prêmio.

Ginásio 

Até que enfim fui para o primeiro andar do prédio antigo, do lado da Marechal Deodoro. Continuávamos com uma disciplina rígida. Sempre levantar quando o professor entrava na sala de aula (Imaginem hoje), sem conversas com os colegas de classe, silêncio absoluto. 

Cobrança. As vezes o nosso diretor, Irmão João Tissi, entrava na sala de aula com uma caderneta. Ele falava com seu sotaque peculiar, anotando na caderneta – “ Gavazzoniiii, seu pai está com a prestação escolar atrasada, fulano, seu pai está com a prestação escolar atrasada. ” Sempre uns cinco ou seis passavam por esse constrangimento.

Se fosse hoje dava processo Rs Rs Rs… Ninguém ligava. Eu só não entendia por que não cobrar direto do meu pai? Tomavam café da manhã todos os domingos juntos. Mistério…

 

GESM. Grêmio Estudantil Santa Maria, a bem dizer, era um Clube de Futebol. Com divisões em categorias, GESM Mirim, GESM Menor, GESM Maior. Com vestiário e tudo que tem direito. O sonho de qualquer aluno era jogar no GESM. Engraçado, meu pai, meus irmãos, Carlos e Paulo, todos bons jogadores e eu, uma negação. 

Não consegui entrar no GESM, mas isto não tornou empecilho para que eu fosse um torcedor fanático do GESM. O auge foi quando o treinador Professor Gilson Vital de Moraes assumiu a direção. 

Quantas partidas emocionantes. Podia ver meus irmãos jogando, Carlos, na lateral, Paulo, no ataque. Fui até ver jogo do GESM no Estádio Dorival de Brito. A coisa era quase profissional e como era bom ganhar do Colégio Estadual. Depois o Irmão Paulo assumiu a direção, e o GESM, nunca mais foi o mesmo.

Fanfarra. Sem poder jogar bola, me aceitaram na Fanfarra do Santa Maria. E nós éramos bons. Adorava aquele uniforme de porteiro de hotel. Fazíamos excursões para várias cidades no interior do Paraná e, outros estados. Fizemos uma apresentação de Gala, antes do jogo Coritiba x Santos, quando Pelé estava muito perto de conseguir fazer mil gols. Não erramos um passo nas evoluções e fomos aplaudidos de pé, com o Estádio lotado. Tive o privilégio de ficar do lado do Pelé, na entrada do túnel para o campo. Foi muito bom!

Professor Gilson Vital de Moraes sem dúvida alguma o melhor professor de ginástica que um colégio poderia ter. Aprendemos a jogar Basketball, Vôlei, todas as modalidades de Atletismo, Futebol, até Handball, quando ninguém conhecia esse esporte.

Um dia, fazíamos tiro de 50 metros. Partíamos da quadra de Basketball e parávamos no final do pátio. Corríamos em duplas. Meu parceiro era o Mauro. Apito, sinal de largada. Em vez de corrermos, fomos trotando, fazendo “ Gracinhas”. Por que! O Professor Gilson ficou uma fera e o resto da turma começou a rir. 

O Professor Gilson gritou – “ Todos para a cancha de Saltos ” que ficava ao lado da Faculdade de Filosofia, no lado da rua XV de Novembro. Manhã de inverno rigoroso, ali, não batia sol. Calção e camiseta, e todos tremendo como vara verde. Uma hora de castigo. O Mauro e eu, só ficávamos ouvindo o resto da turma falando- “ Vocês vão apanhar, quando sairmos daqui ”. Ah, ninguém morreu, ficou resfriado, ou teve qualquer tipo de ataque. Imagina se fosse hoje! Até posso ver a manchete de Jornais “ Professor tortura alunos em colégio” RsRsRs…

Brigas. Sempre foram um evento, tipo MMA. O colégio todo sabia que estava para acontecer uma grande briga na saída das aulas. A Rua XV ficava lotada de alunos. A primeira, que eu me lembro, foi, se não me engano, com o Stephan, loirinho, não muito alto, estudante do científico contra um rapaz moreno alto. O palco da briga, foi deslocado para a Praça Santos de Andrade. Stephan pulou com as duas mãos agarrando um galho de árvore, e enfiou os dois pés no peito do moreno alto e ele desabou, nesse momento, confesso, fiquei com pena do moreno. Mas, não é que o moreno conseguiu levantar, e partiu para cima do Stephan. Caíram no chão, e ficaram trocando socos. Os Irmãos chegaram, e apartaram a briga, e foram levados para a diretoria. Para mim, foi um empate.

A outra grande briga, foi de um aluno, também do Científico, contra a turma da Saldanha Marinho. A turma da Saldanha, ficou na calçada do lado do Teatro Guaíra, e a do Colégio no lado oposto. Tudo indicava que haveria uma batalha épica. Mas, apareceu o pai do aluno, não para evitar a briga, mas para organizá-la. Só brigaria seu filho contra o Mapo da Saldanha. Assim começou o combate que durou bastante, com os dois trocando socos, ponta-pés, golpes baixos, encostados na parede do Colégio. E o pai do aluno, com os braços levantados, gritava; “ Ninguém entra, ninguém entra ”. Chegaram os Irmãos e apartaram a briga. Aluno e pai, para a diretoria. Para mim, empate de novo.

 

Os Irmãos. Irmão João Tissit, meu primeiro diretor. Baixinho, com a voz arrastada, tinha uma alma boa e generosa. Apesar dos “ Micos” que me fez passar, sempre gostei muito dele. 

Irmão Vital, meu segundo diretor, para mim, a antipatia em pessoa (outros alunos o adoravam), nunca conseguiu me expulsar, apesar de seu enorme desejo para isso. Motivos eu dei de sobra. Mas, reconheço que foi um grande diretor para o colégio, o fez crescer e o alavancou para futuras mudanças posteriormente realizadas.

Irmão Celedônio, o carinho em pessoa. Rigoroso, mas com muita ternura.

Irmão Tertuliano, foi meu professor titular por três anos consecutivos. Completamente impessoal. Nunca uma palavra amistosa ou rude.

Irmão Rolf, boa pessoa, atencioso e bom ouvinte. Gostava de ficar no laboratório de química fazendo experiências, onde infelizmente perdeu uma mão.

Irmão Ruppel o faz tudo. Fotógrafo, motorista, marceneiro, etc…. Difícil que tenha um ex-aluno que não gostasse dele.

Irmão Paulo, eminência parda, na gestão do Irmão Vital. Muito educado, sempre me protegeu, mas de forma impessoal.

Haviam muito mais Irmãos, apenas citei os que me marcaram.

Final

Minhas sinceras desculpas aos amigos por não os ter mencionado. Cometeria uma injustiça, como já havia dito, em olvidar algum. Com toda certeza, em vez de uma “ Carta ao Colégio Santa Maria “ eu conseguiria escrever um “ Livro ao Colégio Santa Maria “, de tantas recordações. Nove anos é tempo!

Parafraseando Paulinho da Viola, o Colégio Santa Maria foi um rio chamado amor, que passou pela minha vida. VJMJ.

 

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