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“A Tradição Curitibana”, conta Antonio Carlos da Costa Coelho

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Sou curitibano, criado no Batel, no legitimo, não no bairro que tem seus limites estendidos conforme os interesses imobiliários e comerciais.   Sou da Curitiba fria, das manhãs geladas quando, com calça de brim e camisa de popeline engomada, saía para as aulas no Colégio Santa Maria ainda na Rua XV.  Considero-me um sobrevivente de uma cidade que cresceu assustadoramente nos últimos quarenta anos.

Saudosista e intolerante, como muitos dos meus amigos, ao trato que se dá à cidade. Ela está descaracterizada. As suas praças, ruas e construções traduziam a origem e a cultura dos nossos moradores não são mais as mesmas. O tempo e o desrespeito com a história da cidade rasgaram nossas recordações.

Meu pai, Carlos da Costa Coelho, foi comerciante, primeiro de automóveis, depois de roupas masculinas. Fez nome na cidade. Abriu uma loja em 1957, a tradicional Loja Coelho que está cada dia mais bonita. Trabalhei com ele por vinte anos. Depois de muitos anos, quando já tinha feito minha vida como professor, voltei para o comércio dando continuidade ao empreendimento iniciado pelo meu pai.  

A Coelho é também uma sobrevivente. Testemunha da época em que o centro da cidade era o grande shopping, assim como é nas grandes e encantadoras cidades da Europa. Havia a Lorde Magazine, a Ottoni, a Universal, a Londres, a Leutner, a Alfaiataria Avenida (depois Magazine Avenida), para citar as que atendiam o público masculino. Eram concorrentes da Coelho.  Que falta fazem em nosso centro, hoje tomado por farmácias, óticas, lanchonetes e lojas que mais parecem tendas com a mercadoria exposta até às calçadas.  As boas lojas da minha cidade tinham balcões, prateleiras e vendedores. Muitos deles eram conhecidos pelos seus nomes. Seus proprietários estavam nas lojas, cumprimentavam e atendiam com distinção os seus fregueses.  

Sou professor. Comecei a ensinar, ainda como estagiário, na Escola Israelita Brasileira Salomão Guelman. Depois “morei” vinte anos no Sion, colégio onde estudaram os filhos das ilustres famílias do estado. Os professores, não menos ilustres, possuíam uma bagagem cultural exemplar. Professores de um Brasil que não existe mais.  No Sion aprendi muito graças a Irmã Maria Cristina. Uma verdadeira educadora que, com toda certeza, é a maior que o Paraná conheceu.  

Lecionei História Geral e do Brasil e, também, História de Israel e Judaísmo. Aprendi nos livros e em Israel. Também ensinei Studium Theologicum (Faculdade Claretiana), na Faculdade Evangélica do Paraná, na Faculdade de Filosofia Vicentina.  Hoje escrevo e falo para algum grupo, quando me convidam. Está muito bem assim. Guardo lembranças maravilhosas do tempo de magistério. Muitos ex-alunos me visitam ou os encontro, o que muito me faz feliz.  Acredito que em quarenta anos de magistério, com os bons alunos que tive, deixei esta nossa cidade mais culta, mais iluminada. Agora, com a minha loja, tento, como fez meu pai, deixar Curitiba um pouco mais chique, com gente mais bem vestida.

Casei com Sandra Salmon, também professora. Temos uma filha, Martha, arquiteta, casada com advogado Gustavo Scandelari. Eles nos deram dois netos, Theodora e Bento. Duas crianças, lindas, preciosas que renovam meu afeto, meu prazer e apego à vida. Quero vê-los crescer, ser parte da vida deles, porque isso é eternidade.

 

Antonio Carlos da Costa Coelho

Professor e, atualmente, comerciante, proprietário da “Coelho Artigos Para Homens”.

 

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