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“A historia da arte” conta Adalice Araújo

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Curitiba, 18 de setembro de 1989

 

ADALICE MARIA DE ARAÚJO. Nasceu em Ponta Grossa. Formou-se na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Especializou-se na Academia Di Belle Arti, em Roma. Fez curso de xilogravura no Rio’ de Janeiro com Goeldi, gravura em metal com Ana Letícia. Professora da História da Arte, História da Arte Brasileira, docente livre da História da Arte. Foi responsável pelos projetos que criaram o Círculo de Artes Plásticas no Paraná, Encontros de Arte Moderna, projetos de implantação das áreas de plástica, cinema, teatro, na Universidade Federal. Crítica de Arte/membro da Associação Internacional de Críticos de Arte, tem mais de 700 artigos especializados em crítica de artes visuais na Gazeta do Povo, Diário do Paraná, e na revista “Vozes de Petrópolis”.

 

lzza – Você é formada aqui, Adalice?

Adalice – Sou formada em pintura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Ao contrário da maioria de críticos de arte brasileiros, da área de Literatura como Roberto Pontual, Walmir Ayala, a minha formação é de artista plástica. Depois da Escola de Belas Artes daqui, eu estudei em Roma na Academia de Belas Artes, e também fiz um estudo na Universidade de Florença relativo a história da arte. Posteriormente, quando regressei, formamos com Luiz Carlos Andrade Lima e Jair Mendes o Círculo de Artes Plásticas do Paraná; foi uma experiência de um atelier coletivo que eu trouxe para Curitiba. Depois, eu fiz uma especialização em gravura com a Ana Letícia no Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro e em xilogravura com o Goeldi justamente no ano em que ele veio a falecer em 1961.

lzza – Qual seria seu campo na história da Arte?

Adalice – Depois que voltei para Curitiba, passei a lecionar História da Arte a convite do curso de Biblioteconomia. Acabei indo para um campo teórico e deixei a parte prática de lado. Não sei se é o problema de gostar mais mas, neste campo, eu me sinto mais necessária. Lembro-me de que o fato de escrever uma coluna permanente veio de encontro com a necessidade, quase que da comunidade. Em 1968 o Roberto Pontual solicitou-me subsídios para aquele Dicionário de Artes Plásticas sobre o Brasil; eu já havia escrito quando voltei da Europa, mas não dei continuidade até eu prestei uma pequena colaboração (naquela época) ao Diário do Paraná.

Fiquei bastante espantada porque fui ao Departamento de Cultura e constatei equívocos imensos; classificavam o Viaro de acadêmico, o Bakum de impressionista e eu sabia que existiam claras evidências nas obras desses artistas que os descaracterizavam como impressionistas ou como acadêmicos (como no caso do Viaro. O outro aspecto que me surpreendeu foi a inexistência de um levantamento da obra desses artistas; por isso, comecei a escrever levada pela necessidade. Iniciei no Diário do Paraná com o Aroldo Murá, na época em que ele praticamente dirigia um caderno especial. Acabei levando também para o jornal, a Mariza Sampaio que escrevia sobre música.

lzza – Você é uma das maiores autoridades locais no tocante a História da Arte. Você acha que no Brasil existem muitos estudiosos do assunto?

Adalice – Tem muita gente. É lógico que eu trouxe da Itália experiência, porque a minha formação na Escola de Artes foi muito falha neste aspecto. Tive uma certa iniciação de arte Moderna com Nelson Luz mas logo ele foi tirado da Escola porque queriam separar a pintura da música; o professor Barontini era mais fixado na pintura de Giotto. Então, eu só fui aprender a História da Arte, em Roma. Lá éramos obrigados a cada ano defender uma tese, apresentando um trabalho em forma de monografia. Das minhas aulas saíram vários professores: Fernando Bini, Maria José Justino, Maria Cecília Noronha, e outros. Pessoas que cu reputo como bons professores.

lzza – Difícil ser crítica de arte?

Adalice – É difícil porque existe um equívoco muito grande. Existe muita gente escrevendo, sem nenhuma preparação, fazendo uma crônica social misturada com arte ou fofocas oficiais das Artes Plásticas. O crítico de arte, no verdadeiro sentido, tem que ter sua opinião acima de amizades ou qualquer outro fator; ele seria um “orientador de opinião”. Eu encaro até com certa humildade a função de crítico porque ele é uma ponte entre o público e o artista, uma espécie de decodificador da obra do artista. Muitas vezes existe uma exposição estritamente comercial de alguma galeria o que, para o crítico, passa a representar um problema pois, não podendo falar bem, tem que ignorar ou falar mal.

Isto acaba gerando, atualmente, muito estremecimento com as galerias. Existem, por outro lado, aqueles artistas que são pouco entendidos mas que têm uma linguagem muito contemporânea e você procura fazer com que ele se torne entendido. Eu acho que a função do crítico de arte, inclusive em termos de política cultural, é difícil porque você vê na maioria das vezes (aqui em Curitiba) a falta de opinião. As pessoas estão quase sempre do lado do poder e isso não pode acontecer. Entra governo e sai governo e por mais absurda que seja a Curitiba-cultural, por mais errada, existe uma badalação contínua. Quanto ao crítico de arte, deve ser um analista da situação, doa a quem doer,  sob pena de acabar abrindo mão dos seus princípios.

lzza – Quais seriam os passos para você avaliar uma obra arte?

Adalice – O estudo da História da Arte seria o primeiro passo e ajuda muito. Há um imenso universo que você tem que decodificar, por exemplo: como a linha se organiza no espaço, a predominância da curva no barroco, da linha de caráter mais espiritual no gótico. A leitura dos estilos amplia bastante o teu universo visual porque infelizmente, no Brasil, nós temos uma falha. A História da Arte deveria fazer parte do currículo formal, desde o primeiro grau; quando você se alfabetiza há um pouco de literatura, mas esse universo é mais amplo e deveria não só se estender às Artes Plásticas, como também à música, para fazer parte da conjuntura geral.

No Brasil, temos uma grande deficiência na parte de educação artística; ela deveria ser mais ampla, abrangente e mais sólida, inclusive no sentido de sensibilização e humanização. Vir justamente do que você recebe através da educação artística ( principalmente no quarto ano da Universidade Federal onde os alunos têm que escrever sobre um artista na disciplina “Evolução das Artes Visuais” ), a gente sempre faz um estudo mais aprofundado através de uma análise formal das obras.

Existem elementos muito palpáveis para lazer a leitura da obra de arte mas, para o público em geral, leituras e boas exposições podem facilitar a compreensão da arte. Para fazermos a leitura de uma arte temos também um treino visual; por exemplo: num salão, com uma comissão julgadora competente (apesar de todas as discordâncias que possam haver), podemos saber se é gente treinada na primeira olhada eles sabem o que é bom ou ruim. Pode haver discordância ou polêmica de algumas obras mas isso, a grosso modo, a pessoa que entende sabe distinguir. Isso vem com a vivência e com a experiência.

lzza: o que é bom ou ruim para você?

Adalice – A obra comercial sem conteúdo, superficial, para mim é ruim. O bom é a que nos leva à reflexão do universo. A obra aberta é aquela que você completa seu inconsciente, sua vivência. Quando a obra é fechada demais, ela não nos dá o direito de uma releitura. A muito ilustrativa fecha nossa possibilidade de criar junco com o artista porque, hoje, o espectador tem que ser um criador junto com o artista. Depois da arte conceituai existe esta abertura, onde o espectador já não é passivo e sim, ativo.

lzza – Pessoalmente, qual é o seu gênero preferido?

Adalice – Gosto de todas as formas; não há um gênero que eu prefira mas aprecio uma obra que tenha qualidade. Fiz três apresentações este mês, de artistas muito diferentes:
Juarez Machado, Ronys Dumke e Letícia Faria. Acho que eles são muito sinceros dentro do que fazem e isso me deixa muito à vontade para fazer a apresentação. Ronys Durnke, trabalha dentro da linha da arte culta, da referência ao passado greco-romano; já a Letícia Faria trabalha com o inconsciente, mitologia individual e é uma artista muito contemporânea.

Izza – Qual seria sua sugestão para melhorar o nível cultural de Curitiba?

Adalice – Seria executar uma série de projetos através do Museu de Arte Contemporânea, em termos de informação; cursos do tipo de Lima Medeiros, que trouxessem realmente informação ao público. Um bom nível de exposições seria um projeto a longo prazo, implicando num grande investimento nas crianças, na arte e na educação. Uma melhora no padrão das galerias de arte. Acho que outro ponto, também, seria mais seriedade por parte dos órgãos de cultura. Por exemplo, veja bem a situação: não adianta ter um projeto excelente sem o apoio político, muitas vezes, de pessoas que têm capacidade para dinamizar o Estado, a Cidade. Não sei como estará a política daqui a um ano, mas penso que os responsáveis deveriam ter uma maturidade bem maior ao colocar as pessoas certas nos lugares certos e não somente aquelas que têm “staff” político; elas deveriam ser escolhidas por sua capacidade e não pelo seu relacionamento político.

Izza – O que você gostaria de acrescentar para finalizarmos nossa entrevista?

Adalice – Gostaria ainda de acrescentar que os artistas que ainda não foram absorvidos pelo mercado de arte do Paraná, esses artistas da geração 80, na minha opinião, formam a geração mais criativa de toda a arte paranaense. Raul Cruz, Rosana Guimarães, Laura Miranda, Geraldo Leão (entre outros) são artistas de alto nível, mas as galerias de arte ainda não investem nestes talentos, não absorveram, A abertura deve ser maior porque, o papel das galerias, não é deixar o nível do artista obrigando-o a fazer um tipo de obra que o público aceite e sim levar a leitura do público. Investir nestes novos talentos realmente seria uma abertura pois os novos precisam de incentivo. Em São Paulo, no salão de artistas, a faixa dos que estão concorrendo é de 19, 20 anos, são artistas jovens. O problema existe aqui no Paraná!

 

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