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“Para mim, liberdade é essencial” expressa Marilza Tavares Martinelli

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Curitiba, 24 de Junho de 1990

 

Marilza Tavares Martinelli; Advogada, professora de Direito Agrário na Faculdade de Direito UFPR, atua também com Direito Eleitoral. Desempenhando com dinamismo e competência suas funções, Marilza nos conta nesta conversa, como desenvolve o seu trabalho e como pensa.

 

Izza – Para você como mulher foi fácil iniciar a carreira de advogada?

Marilza – Foi fácil tanto na advocacia quanto na Universidade, onde atuo há treze anos. Na Universidade fui convidada pelo professor de Direito Constitucional, Sansão Loureiro, que eu considero o meu guru e a quem devo o meu emprego porque saí da Faculdade em dezembro e em março comecei a dar aulas. Entrei numa sala de aulas com 23 anos. Reconheço que fiz um bom curso o que realmente me abriu portas. Como mulher não senti nenhum problema, porque existe uma escala hierárquica onde você vai adquirindo pontos, seria uma espécie de promoção e os salários são idênticos tanto para o homem quanto para a mulher, então não existe discriminação. Na advocacia, reconheço que há o lado fácil e o lado difícil. É fácil no que se refere a advocacia no Cível de 2º grau, mas complica um pouco na parte criminal onde você tem que frequentar delegacias. Salvo a Polícia Federal, as da Polícia Civil, não são realmente ambientes onde você possa se sentir à vontade. É profundamente desgastante este trabalho.

Izza – Qual seria a tua especialidade?

Marilza- Agora sou especialista em Direito Agrário, inclusive com concurso na Universidade. Aqui em Curitiba o campo para Direito Agrário é muito restrito, se dirige mais para o interior, refere-se a terras, posse, propriedade, invasão, brigas com posseiros, etc. Sei que é uma especialidade diferente, pouco comum para uma mulher. É complicado porque em certas situações até dá um pouco de receio, mas é a parte do Direito que me fascina.

Izza – Como você chegou a entrar neste campo?

Marilza – Foi também uma oportunidade. Havia sido criada a disciplina de Direito Agrário na Faculdade de Direito e tinha sido contratado na época, um professor que logo pediu demissão. Ficou a vaga e na época o chefe do departamento era o professor Vidal Vanhoni que me convidou para dar aulas. Comecei a ler, dar uma estudada e me encantei.

Izza – E o direito eleitoral?

Marilza – Abrange toda a parte de filiação partidária, do partido político, como o candidato deve proceder para ser candidato, como são feitas as convenções, o que exige o partido para que ele faça parte das convenções, as coligações partidárias. Realmente são detalhezinhos que se você deixar passar perde todo o trabalho de montagem de um partido político. Acho que será fundamental ter no currículo das Faculdades de Direito esta matéria, porque eu só fui aprender Direito Eleitoral quando fiz o curso de preparo para Magistratura na’Escola de Magistratura do Paraná. Quando fui aluna não havia tido a menor noção do assunto como os alunos que saem hoje, sem a mínima ideia de Direito Eleitoral. Deveria ser uma disciplina autônoma ou uma parte específica do programa de qualquer outra disciplina, evidentemente, que se encaixe.

Izza – Sendo importante o Direito Eleitoral e estando agora tão em evidência o tema, a que você atribui a não existência desta matéria na Faculdade?

Marilza – Realmente não sei. Veja bem, o Direito Eleitoral tem legislação própria, código eleitoral, penal, civil, comercial, de processo, estipula normas, comportamentos, crimes eleitorais e não existe como disciplina autônoma na Universidade.

Izza – Em tua opinião o ensino é falho na Universidade?

Marilza – Não que o ensino seja falho. Eu acho que a Universidade, as Faculdades de Direito especificamente, estão um pouco despreparadas sob certos ângulos. Não temos cadeira de Direito Ambiental, importantíssimo, nem Direito Eleitoral e assim vários outros ramos de Direito que eu penso que deveria ser mais aprofundados. A Faculdade de Direito é ainda um global. Para você aprender Direito Eleitoral, por exemplo, teria que fazer um curso de especialização porque como currículo não existe. Eu fiz em 87 /88 a Escola de Magistratura e lá há esta disciplina. Eles já preparam para concurso de juiz que quando chega na Comarca vai trabalhar com cartório eleitoral. Ele precisa ter o embasamento desta disciplina que não teve na Faculdade. Se você faz um curso de especialização para o futuro, tem que ter pelo menos alguns aspectos relativos a essa matéria, foi aí que comecei a ter contato direto.

Izza – Quando você começou a trabalhar com política?

Marilza – No ano passado na campanha para presidente, em função da admiração profunda que tenho por Ronaldo Caiado. Este ano comecei com o Direito Eleitoral para formação do partido, o retorno do PSD ao Paraná. Nós precisávamos montar o partido que foi considerado partido definitivo pelo Tribunal Eleitoral de Brasília. Para podermos lançar candidatos tivemos que estruturar as bases partidárias. No caso 20% dos municípios em comissões diretoras regionais provisórias. Este partido era o partido político do ex-governador Moisés Lupion que agora está retornando ao Paraná.

Izza – O teu trabalho no partido consiste em que?

Marilza – Todo o aspecto jurídico, a filiação partidária, a montagem de ata, enfim, tudo que se relaciona ao Direito Eleitoral relativo ao partido político.

Izza – Como é a Marilza fora de todas essas atuações?

Marilza – É difícil fazer uma auto-análise principalmente porque sou uma pessoa que me cobro muito. Eu como mãe sou exigente ao extremo porque a função de ser pai e mãe não é fácil. Para a minha filha procuro dar a melhor educação, formação intelectual dentro de um lema chamado Verdade, que é fundamental. Eu prefiro tentar entender uma verdade que me doa do que ficar muito feliz com urna mentira que posteriormente vou saber o outro lado. A educação é super importante porque ela dá retorno. Quem tem educação tem a porta aberta em qualquer lugar do mundo. Sabendo tratar bem as pessoas e conviver educadamente, todas as portas se abrem.

lzza – A situação de uma mulher sozinha como é?

Marilza – Eu acho ótimo. Viúva, desquitada, separada ou só por opção, é atualmente, uma situação normal. Hoje a mulher está em boa situação, ela não é mais encarada como objeto perigoso, a própria sociedade não a discrimina mais como antigamente, tem suas compensações. O fato de eu poder ir e vir de qualquer lugar a qualquer hora, de conseguir fazer o que gosto, para mim tem um valor imenso.

lzza – A parte profissional da mulher quando é intensa sacrifica o lado casa, marido, filhos, etc.?

Marilza – Acho que não. Dentro do meu horário, que é diversificado, antes vem o conforto e bem-estar da minha filha. Casa não é tão importante, ela deve ter aconchego, fazer com que nos sintamos bem. Quando entro em casa estou chegando no meu canto, no que é meu, quero dizer que não sou daquelas fanáticas pela casa, que vivem em função dela e não podem ver um cinzeiro sujo, um pouco de pó.

lzza – O que você mais aprecia nas pessoas?

Marilza – Honestidade é uma coisa muito importante, eu tenho também passado este conceito para minha filha. Pra mim é gratificante quando vejo que existe, que eu começo a conviver com alguém que é honesto, não no tocante a pegar um objeto que não lhe pertence, não só neste sentido, mas a honestidade da fidelidade, da franqueza e da lealdade. Hoje isso existe muito pouco porque o ser humano está meio desgastado. Abomino a falsidade, porque eu prefiro ser franca e honesta, o que tenho que dizer, digo.

lzza – E planos quais seriam?

Marilza – Tenho planos, mas não para já. Pretendo fazer um curso de especialização de Direito Agrário na Universidade de Roma, inclusive como o curso tem a duração de dois anos e estou adiando por causa de minha filha, acho que agora ainda não é o momento exato. Quero que ela se prepare na escola para posteriormente ir comigo.

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