Carregando...

“SEMPRE GOSTEI DE ENSINAR E ESTA E MINHA OPÇÃO DE VIDA” expressa Nea Faust

Postado em

Curitiba, 10 de abril de 1988

NEA FAUST, Sra. Edson Faust, dedica-se desde muito cedo ao Ballet. Sempre criando, procurando a perfeição, traz como bagagem vários cursos em Nova Iorque. Nea foi, é e será sempre destaque. Atualmente lança em Curitiba, a “Extratus”, academia inovadora, diferente, onde terá a oportunidade de mostrar e ensinar todos os seus conhecimentos, adquiridos ao longo de muitos anos de paixão pelo bailado.

IZZA – Como o Ballet começou a fazer parte de sua vida?

NEA – Iniciei numa época em que todas as meninas o praticavam para tornarem-se mais delicadas, leves e femininas. Este era o conceito da época. Logo no começo, descobri que este não era o meu conceito, o meu pensamento. Ballet, para mim, era mais do que isso, muito mais, e me dediquei inteiramente, descobrindo cedo minhas limitações, e assim, trabalhei duro e incansavelmente para atingir a perfeição. Até hoje busco essa perfeição, e acho bastante difícil que qualquer bailarino o consiga, sem dar 100% de si mesmo.

Antes de mais nada, é preciso ser exigente, ter fé na dança, honestidade, e procurar o máximo possível em cada ser humano. Comecei meus estudos de Ballet clássico com Tadeu Morozovitch e com sua filha Milena, na Sociedade Thalia, aos oito anos de idade. Dedicava-me inteiramente, de corpo e alma, e aprendi a amar o Ballet. Jamais me importei de perder festas, amigas, praia ou qualquer viagem, qualquer coisa que fosse, pelo meu ideal. Lembro-me que, as vezes, passávamos finais de semana ensaiando para espetáculos da escola. Paralelamente, senti em mim uma irresistível tentação de criar, observava muito, inclusive outras aulas, e tentava passos novos. Tadeu e Milena nunca tolheram seus alunos, ao contrário, sempre os incentivaram.

IZZA – Nea, você começou a ensinar cedo?

NEA – Olhando para trás, eu vejo claramente que sempre gostei de ensinar e que esta é a minha opção para o futuro. Comecei aos 15 anos, e também tive minha passagem pelo Corpo de Baile do Teatro Guara. Claro, fui evoluindo e descobrindo outras formas de dança que não eram menos interessantes em minha formação profissional. As coreografias surgiram cedo em minha carreira, e fui incentivada a continuar. Semen Jambay, uma figura maravilhosa, um grande mestre, de uma personalidade fortíssima e dedicação ímpar, foi um dos responsáveis para que eu assumisse desafios maiores.

IZZA – Sei que você é apaixonada por sapateado?

NEA – Só descobri o sapateado mais tarde. Foi uma paixão fulminante e duradoura. Atualmente é minha preferência pessoal Cada um tem o seu caminho e deve encontrá-lo, eu achei o meu. Vibro com cada som, cada passo, cada música que possa ser sapateada. É como um sonho antigo e pretendo levá-lo adiante em todos os lugares onde existir público para apreciá-lo. Gosto tanto de sapatear quanto de ensinar. Quem é capaz de não vibrar, ao escutar o som de tacos? Dificilmente você encontrará alguém que não aprecie ou não sinta vontade de sair sapateando com boa música.

IZZA – Quais seriam as qualidades essenciais em um bailarino?

NEA – Deve haver mais do que técnica. Para mim, um bailarino, seja clássico, moderno, preferindo jazz, sapateado ou Ballet contemporâneo, deve estar preparado para qualquer desafia Trabalhar dentro de sua personalidade. Técnica somente, não é o suficiente. É preciso muito mais.

IZZA – Como é o seu relacionamento professora-aluno?

NEA – Meus alunos são muito especiais para mim. Tenho um carinho imenso por todos eles, embora seja um pouco rígida. Já comentaram o fato de eu servir chá na sala de aula, é verdade. Costumo vê-los como indivíduos. Gosto de discutir com eles seus problemas Individuais e coletivos, e direcioná-los em suas tendências mais fortes. Eles sabem que eu amo a dança acima de tudo e que cultivo honestidade comigo mesma, isto é primordial em arte. Muita gente ama a dança, mas não tem a paixão que ê essencial. Hoje tenho consciência do que desejo e de como direcionar-me para conseguir o melhor de mim.

IZZA – Nea, sei que você viaja frequentemente para fazer novos cursos?

NEA – Desde que resolvi ser uma profissional do sapateado, realmente tenho viajado frequentemente a Nova Iorque para aperfeiçoar minha técnica e aprender. Frequentei cursos na Broadway Dance Center, na Steps 74, na Lockery, e tive a oportunidade de aprender com James Coleman, Bobby Audy, Mery Jane Blown, Judy Bassing. Não tenho medo de dizer que estou aprendendo todos os dias e que pretendo aprender mais e mais até o fim de minha vida. Acho que aqui no Brasil as escolas monopolizam os alunos, e isso vai contra os meus princípios. Penso que os alunos deveriam fazer aulas com diversos profissionais para que possam adquirir uma visão geral de todas as técnicas e estilos. O professor não é dono do seu aluno, ele é apenas a mão que o orienta. O que eu vi e senti fora do Brasil é que as pessoas são menos egoístas e dividem experiências. Lá, os profissionais não querem saber só de si, de sua escola e de seu estilo. Isto é maravilhoso, porque, agindo as- sim, ajudam os outros a crescer e não param no tempo.

IZZA – Já que você teve experiências lá fora e conhecimento com bailarinos, quais seriam as diferenças entre os bailarinos americanos e os brasileiros?

NEA – Cada raça é distinta, exige método diferente. Não acho os bailarinos americanos melhores que os brasileiros, porém, têm mais disciplina, mais força de vontade, concentração, e principalmente, paixão pela dança. Ê uma questão de cabeça. Acho que eles trocam mais informações, ponto essencial para o crescimento. Nós aqui trabalhamos sempre muito voltados para nós mesmos, deveríamos nos unir, trocar mais idéias, experiências, informações, isto evitaria que batéssemos a cabeça para alcançar o objetivo certo.

IZZA – E sobre a academia recém-inaugurada?

NEA – A “Extratus Dança e Ginástica” acaba de abrir suas portas. Para mim, vem no momento certo. Com ela terei a oportunidade de desenvolver velhos sonhos e trabalhar em cima daquilo em que acredito. Eu, Maria Amélia Kastrup e Zanza Mertiy fazemos a “Extratus”, e nossa proposta é trabalharmos sério em busca de constante aprimoramento. Não queremos ser lugar-comum, não nos interessa virarmos moda ou revolucionarmos métodos, almejamos mais: desenvolver todo o potencial que o aluno possui dentro dele e do qual na maioria das vezes nem tem consciência. Vamos explorar novas áreas, como o teatro, o canto, dança folclórica, etc, buscando pontos de referência para futuros trabalhos com os próprios alunos.

Sei que só vontade e determinação não bastam, mas são pontos concretos a nosso favor e é por aí que começamos. O que nós gostaríamos de transmitir a nossos alunos é a nossa real filosofia da dança e da ginástica, ou seja, trabalhar duro com muita dedicação, sem esperar grandes resultados a curto prazo. O importante é que eles tenham a consciência de um profissional. Claro, sabemos que temos um longo caminho a percorrer, mas também a certeza de que os alunos, que acreditarem no nosso trabalho, irão percorrê-lo conosco. Somos três forças independentes, agora unidas no mesmo ideal de trabalho e amizade.

IZZA – E sobre a aceitação do seu trabalho e sua paixão pelo Ballet, você teve problemas com amigos, família, etc.?

NEA – Sempre tive o maior apoio dos amigos e o incentivo da minha família. Posso me considerar uma pessoa de sorte neste sentido, pois nunca sofri nenhum tipo de discriminação em relação ao fato de optar pela dança. Minha carreira sempre andou de braços dados com minha família, e sem eles eu não teria conseguido nada. Deles eu tiro a força para o meu trabalho porque, antes de tudo e de todos, eles acreditam em mim. E para conciliar tudo, sou uma pessoa metódica e organizada, tenho toda uma estrutura doméstica organizada, sem a qual não poderia sobreviver. Gosto de tudo sob controle. Não poderia administrar uma escola sem que minha casa estivesse organizadíssima. Não é difícil, quando se tem bons colaboradores e um pouco de tolerância para consigo mesma e para com os que nos rodeiam.

IZZA – Por que você acha que a mulher procura uma academia?

NEA – Por vários motivos, entre eles a estética. A mulher é extremamente vaidosa, além disso, cultura, querer aprender, curiosidade, descoberta. Descobrir o que existe de mágico neste mundo de academias. Eu diria que tudo isso faz com que mais e mais curitibanos procurem fazer dança ou ginástica. Hoje em dia, a mentalidade mudou, e todos acham válido aprender a dançar, profissionalmente ou
não.

IZZA – O que a faz levar tão a sério os seus projetos?

NEA – Amor pelo que faço. Minha filosofia de vida é simples: temos muito potencial e muito que aprender, até o fim da vida.

IZZA — O que você gostaria de transmitir às curitibanas?

NEA – A mulher curitibana, para mim, é uma batalhadora, vai a luta, discute, briga, ama e vive seu dia-a-dia como se fosse o último. Para essas mulheres eu gostaria de dizer que só se consegue aquilo que realmente se deseja.

 

Enviar por e-mail