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“TEMOS QUE TRABALHAR COM PORTAS ABERTAS ATENDENDO A TODOS “ conta Nely Valente de Almeida

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Curitiba, 21 de agosto de 1988

NELY ALMEIDA nascida em Santa Catarina, há trinta e cinco anos no Paraná Nely se considera parte integrante dessa comunidade. Ativa, dinâmica, participante, ela se destaca pela sua forte personalidade e realizações. Mãe de Maria Cristina, Helizabeth e Renato esta é Nely, Sra. Felix do Rego Almeida.

IZZA – O que você acha da atuação da mulher na política?

NELY – Acho que as mulheres podem e devem participar bastante, da vida política, não só do Estado como também da Nação. Elas são a maioria do eleitorado brasileiro, e como tal, devem estar presentes em todos os programas não só educacionais e culturais, como também devem ser incrementadoras de empregos através de uma política empresarial livre, geradora de riquezas. Temos hoje, em nosso meio, muitas mulheres empresárias de pequenas e médias empresas. Agindo politicamente podemos, nós mulheres, multiplicarmos riquezas a fim de criarmos condições de trabalho, evitando o desemprego e gerando lucro, desenvolvendo a indústria e o comércio, e fazendo uma política voltada ao desenvolvimento do País. As mulheres têm que estar conscientes que, a política, o trabalho unitário tem efeito multiplicador.

IZZA – Como você está desenvolvendo a campanha?

NELY – Eu diria que ela está indo bem. Tenho contado, com grande número de adesões, muitos amigos, até o trabalho do meu marido na medicina como também da minha filha tem me auxiliado muito. As pessoas nutrem pelo Felix e pela Betinha uma grande admiração, o que logo transferem para mim pelo menos um pouco deste carinho todo. Penso que com o auxílio de todos os amigos, terei sem dúvida uma campanha bem-sucedida

IZZA – A mulher atuante, na tua opinião consegue trabalhar fora e ao mesmo tempo dar atenção à família, ou você acha que sempre um lado sai perdendo?

NELY – Acho que a mulher atuante pode fazer tudo, porque eu sempre fiz. É uma questão de trabalho, conciliação, perseverança e compreensão. Minhas irmãs e eu, demos provas que nenhuma das partes sai perdendo se houver veracidade de propósitos, ideais definidos e aliados a um grande e
incomensurável trabalho.

IZZA – Como surgiu a ideia ou a vontade de entrar na política?

NELY – A vontade de entrar na política nasceu de uma necessidade de ajudar as pessoas. Pensei e pensei, como poderia ajudá-las e cheguei à conclusão que somente com ação política isso seria possível. Explico, pessoalmente eu poderia ajudar uma duas ou dez pessoas, talvez vinte ou trinta. Atuando no campo político eu posso ajudar centenas, milhares de pessoas, efetivamente. Auxiliar com água encanada, esgoto, energia elétrica, creches, escolas, bairros urbanizados, praças, parques, enfim, dar a elas o que elas mesmas não poderiam conseguir sozinhas e nem eu conseguiria resolver sozinha, mas que a comunidade pode, e deve dar, não no sentido de presentear, mas sim, no sentido de entregar às pessoas, aquilo a que elas têm direito.

IZZA – Você iniciou cedo a sua participação política?

NELY – Talvez eu tenha participado durante toda a minha vida. Fui precursora do Teatro do Estudante no Paraná em 1954, juntamente com Armando Maranhão onde gratuitamente, levamos peças infantis para crianças carentes, asilos, orfanatos, tanto daqui como do Rio de Janeiro. Trabalhei no antigo
Partido Social Democrático, onde desenvolvemos grandes serviços na área social. Fui também secretária do líder da bancada na época, dr. Hélio Setti, no governo Moysés Lupion.

Quando entrei para a faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, no segundo ano, já era presidente do Centro Acadêmico da referida faculdade. No decorrer do meu curso, sempre participei muito, tanto na política estadual como na universitária Depois casei e me afastei para criar meus filhos e educá-los convenientemente. Durante este período, já bacharel em licenciatura em Geografia e História, escrevi três ensaios sobre Curitiba “Esboços Históricos da Justiça em Curitiba”, “Curiosidades Históricas da Irmandade de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais da Vila de Curitiba”, “História de Curitiba” (ensaio sobre sua evolução).

IZZA – Nely e na continuidade?

NELY – Bem, terminados esses trabalhos, passei a fazer parte e participar como membro do Instituto Histórico e Geográfico e Etnográfico Paranaense, e o passo seguinte, foi entrar no Centro Paranaense Feminino de Cultura. Participo até hoje. Na atual gestão da professora Juril de Plácido e Silva Carnasciali, da diretoria cultural no tocante a artes plásticas, juntamente com Clotilde Cravo. Há 4 anos, com alguns colegas, participei da Fundação da Associação Profissional dos Artistas Plásticos, entidade esta, que vem representando muito bem a classe artística Como membro dessa associação participei de alguns certames artísticos, não só de âmbito estadual como federal e até tive o prazer de receber convites especiais para expor nos Estados Unidos. Durante o ano de 87 e 88, início, fui presidente do Conselho da Galeria de Arte Poupança Banestado, função da qual gostei muito. Desempenhei um bom trabalho juntamente com meus colegas de classe.

IZZA – Sabemos que você sempre se preocupou muito com os carentes, não é?

NELY – Sim, no ano passado, eu e Rosarita Dotti, fundamos o teatro para “Criança Carente” e levamos somente em 87 aproximadamente 10.000 crianças de baixa renda ao Teatro 13 de Maio, algumas delas das escolas da rede municipal de ensino. Esta experiência que contou com o auxílio do Bamerindus, Corujão e Banestado teve sucesso absoluto. Apresentamos três peças especialmente selecionadas e dirigidas a estas crianças de periferia, onde o abandono é bastante e a carência é uma realidade vivenciada por nós, que participamos deste projeto. No decorrer das apresentações começamos a notar, a pobreza dos alunos e eu me prontifiquei de imediato a providenciar junto às autoridades estabelecidas, um lanche que suprisse também a falta de alimentação, ou que completasse a mesma. Talvez no desenrolar deste projeto as autoridades passassem a se preocupar conosco.

O resultado disto foi a desapropriação do Teatro da Classe deixando este espaço amplamente comprometido, agora livre para a apresentação de nossos espetáculos já tão bem-sucedidos. O aproveitamento didático das crianças foi excepcional, alguns escreveram artigos muito criativos e bonitos com relação aos mesmos. Às quartas séries aprenderam praticar toda a história e lendas do Paraná através deste trabalho. Este foi um trabalho do qual tive e tirei muito proveito para minha vida me engrandeceu muito. Vivi e convivi com a criançada, horas maravilhosas e espero que tenhamos no decorrer deste ano, o mesmo sucesso que já tivemos. Atualmente temos uma Fundação já constituída e aguardando registro em cartório. Os espetáculos estão sendo apresentados no pequeno auditório do Guaíra porque o Teatro da Classe será submetido a reformas.

IZZA – Caso eleita o que você pretende realizar na Câmara?

NELY – Na Câmara os vereadores devem deixar de as- sumir uma política clientelista, de troca de favores, devem as- sumir posições claras quanto as grandes questões de Curitiba. A Câmara deve se transformar num foro permanente de debates permitindo o livre acesso da população, organizada ou não. O poder de decisão, fiscalização e participação nas atividades administrativas deve ser ampliado em benefício da própria coletividade. Hoje a Câmara está distanciada da população que dela descrê, precisamos reverter este processo com uma revisão profunda no seu regimento interno e leis que regulam o seu funcionamento, assumindo a transparência como norma, evitando gastos excessivos e atitudes que gerem descrédito no poder Legislativo. Temos que trabalhar com dignidade e de portas abertas atendendo a todos.

IZZA – Quais seriam especificamente seus objetivos?

NELY – Melhoramento de todo o esquema comunitário já existente. Aprimoramento do ensino da 1ª a 8ª séries. Nos bairros distantes da periferia faltam das quartas as oitavas séries, o que dificulta muito para os moradores, dada as precárias condições econômicas de deslocamento das crianças para outros bairros próximos. Semana passada estive no bairro de Tatuquara, e verifiquei que uma das queixas dos moradores é justamente a falta das quartas e das oitavas séries. Melhoria na rede municipal de ensino – Atenção aos menores carentes e abandonados, Assoma. Apoio total e irrestrito ao maravilhoso projeto de Maristela Requião que tomou possível este sonho de todos os paranaenses, e porque não, brasileiros. O menor abandonado tem que ser recuperado pedagogicamente, a sociedade existente dando aos mesmos, condições de trabalho e de participação. Existem inúmeros talentos até abandonados à mercê de nossa total indiferença e nossa inconsciência social.

Outro objetivo é o aproveitamento da terceira idade em programas comunitários. Acho eu que inúmeras pessoas de nosso meio social, podem nessa fase de sua vida, repassar seus conhecimentos gratuitamente ou não, aos menos favorecidos, tendo uma participação efetiva não só através de chás, lanches, bingos, mas com sua presença física, com trabalhos manuais, costura, pintura, cerâmica, aquarelas, enfim todo o tipo de trabalhos artesanais, incluindo trabalhos pedagógicos como conscientização, através de conferências e palestras, alfabetização, lazer e outros.

Criação de centros profissionalizantes, oficinas patrocinadas pelas empresas de pequeno e médio porte, para mão-de-obra especializada de nível médio. Preparação de mestres de obras, mecânicos, alfaiates, marceneiros etc, a fim de suprirem o mercado de trabalho no momento que se apresente a necessidade imediata de reposição. Esse esquema deve ser implantado junto aos grandes centros comunitários de preferência nas freguesias. Atendendo com sabedoria e perseverança a comunidade carente teremos mais segurança e tranqüilidade – Incentivo às artes populares. Integração das artes plásticas, com o programa de recuperação de menores. É de conhecimento de todos que os menores abandonados, dada a sua ilimitada liberdade, são imensamente criativos e que poderiam ser canalizados para as artes plásticas e neste justo momento, entrariam os artistas plásticos com sua bagagem cultural para desenvolverem ainda mais toda essa potencialidade e nortear os caminhos dando diretrizes novas ao seu desenvolvimento artístico e cultural.

O que não podemos é perder toda essa potencialidade. Outro dia vi na Assoma os lindos desenhos feitos pelas crianças e que foram até selecionados pela instrutora, artista plástica, para serem posteriormente imprimidas nas camisetas, por eles mesmos. Outro ponto importante é o atendimento aos excepcionais desenvolvido pelo prefeito Roberto Requião na Escola Experimental Ali Barck. Nas crianças com graus leve e moderado e deficiências dos 6 aos 15 anos. Progresso tem sido grande, oferecendo as mesmas condições de máxima independência A escola inicia com os alunos a pré-profissionalização para poder mais tarde encaminhá-los à Escola Mercedes Stresser. Acho de muita importância a preservação da memória histórica de Curitiba.

Temos que conservar sempre nosso passado, nossa memória enfim nossa vida. Outro assunto a ser revisto e continuado é com abastecimento. Temos dois grandes mercadões populares destinados às populações de baixa renda. Precisamos, entretanto, para atingirmos os 80 bairros que compõem a cidade, uns trinta destes. O Mercadão Popular atinge 350 mil pessoas, temos que atingir aproximadamente um milhão, este projeto é de fundamental importância para as populações mais carentes. Fazem uso deles as pessoas cadastradas pelas associações de moradores que se servem dos mesmos, onde os produtos vêm do Programa de Alimentação Popular da Cobal, e das hortas da Frei. Dando continuidade aos objetivos devo salientar que dado ao crescimento imenso do centro urbano, a necessidade total de sua total descentralização, necessidade de vários subcentros que darão melhores condições de vida aos moradores dos bairros que passarão a ter todas as comodidades do centro, perto de onde moram.

IZZA – Nely agora falemos sobre tuas aptidões artísticas.

NELY – Sou de família de artistas. Meu avô de origem holandesa, foi grande artista em Santa Catarina. Independente disto, tive tios e tias músicos e pintores. Desde muito cedo dediquei-me às artes. Quando menina cantei em todos os palcos do Estado de Santa Catarina sempre em apresentações
beneficentes, meus pais me levavam de um canto para outro. Foi aqui no Paraná que passei a me dedicar ao desenho e à pintura e disso não deixarei jamais, pois será a minha ocupação na velhice. Pretendo continuar sempre com o desenho porque é uma atividade gratificante e faz bem a meu ego.

IZZA – E, para finalizar, falemos sobre as pessoas que te ajudaram em tua trajetória.

NELY – Seria difícil enumerá-las. Primeiramente meu marido, meu companheiro de todas as horas. Minhas irmãs que são ótimas, amigas, meus cunhados e cunhadas, os tenho como irmãos. Independente desses mais próximos tive em minha vida uma pessoa que morou comigo durante 25 anos, hoje infelizmente já falecida. Ela se dedicou muito à minha família, intensamente. Sinto grande saudade. Minha sogra, maravilhosa, ótima amiga e companheira, meus pais, e finalmente uma imensidão de bons e queridos amigos que tenho conhecido durante este período em que moro no Paraná.

 

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