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“TENHO ENCONTRADO APOIO NAS PESSOAS QIE ME CERCAM” expressa Joyce Ribas

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Curitiba, 27 de novembro de 1988

JOYCE RIBAS. É uma pessoa simpaticíssima, gosta de um bom bate-papo. Conversamos informalmente com muito desembaraço sobre suas atividades no “Curitiba “Women’s Club” que ela lidera como presidente e de sua arte à qual se dedica há muitos anos. Esta é Joyce, a nossa entrevistada de hoje.

IZZA – Fale-nos sobre a sua atuação como Presidente do “Curitiba Women’s Club”.

JOYCE – O clube começou no ano passado aqui em Curitiba, com a diretoria de São Paulo. As mulheres vieram, nós fizemos um lanche, e o Clube ficou fundado aqui em minha residência. Escolhemos uma diretoria e eu fui eleita presidente. Aí começamos a agitar, trabalhar. Aqui no Paraná este Clube não era conhecido, mas é de categoria internacional. No Rio de Janeiro, por exemplo, está completando sessenta anos; em São Paulo, 36 anos, em Recife, 40 anos e agora foi criado em Aracaju, Natal. Ele já existe em Belo Horizonte, Rio Grande do Sul, Petrópolis. O clube é de caráter filantrópico, cultural, social. Reunimos as pessoas interessadas que queiram ser voluntárias para qualquer atividade que pretendamos exercer dentro da Filantropia.

IZZA – Durante este ano de existência aqui, vocês já realizaram alguma atividade?

JOYCE – Com apenas um ano como você disse, já fizemos doações ao Hospital Erasto Gaertner, ao Educandário Santa Felicidade, que mantém um grande número de crianças, a creches, Oficinas de Santa Rita e muitas outras. Me considero muito feliz neste acontecimento e também levando o Clube para a frente porque recebi um apoio enorme, inclusive de outras entidades; Centro Feminino de Cultura, Soroptimistas, Santa Rita, AFAM, e agora a Escola Ecumênica.

IZZA – O que seria a Escola Ecumênica?

JOYCE – Ela mantém 260 crianças e dois programas de assistência, laboratório (que faz o exame do pezinho para constatar deficiências no recém-nascido) e depois estas crianças, que não têm condições de melhora, quando recém-nascidas, elas mantêm lá. Nós ajudamos várias outras entidades carentes porque ainda não temos uma área definida, e nossa sede própria. Atualmente todas as entidades passam por sérias dificuldades porque a parte financeira está difícil e com o pouco que consigamos já ajuda.

IZZA — Quando foi exatamente o início das atividades do Clube?

JOYCE – Iniciamos no ano passado, no mês de outubro. Éramos em 15 senhoras da diretoria e atualmente estamos com mais de 120 sócios. As pessoas foram se unindo, fomos trabalhando e hoje estamos com vários eventos. O último foi no Círculo Militar do Paraná, lançamos um concurso de literatura na categoria de prosa e poesia. Isso também divulgaremos mais tarde. Com este concurso estamos homenageando o Dr. Vasco Taborda Ribas. Agora faremos outro no Clube Curitibano, o Bingo em prol da Escola Ecumênica do Paraná. Como é tradição deste clube tanto nacional como internacionalmente (sendo ele só do sexo feminino) daremos o Título de Mulher do Ano para aquela que se destacou tanto dentro do Clube como na comunidade. Este ano foi escolhida a nossa primeira dama, Dna. Débora Dias pelos serviços que ela tem prestado à Provopar. Suas realizações merecem destaque. Veja você, que a Provopar é uma entidade conhecida dentro do estado todo. Será a nossa primeira mulher do ano.

IZZA – Sendo um Clube de sessenta anos, porque tardou tanto até chegar a Curitiba?

JOYCE – É um clube de tradição americana. Começou assim: viera para o Brasil esposas de empresários que vinham dos Estados Unidos e formavam grupos. Existem alguns clubes onde elas falam somente inglês. Realmente era um clube fechado, mas com as dificuldades e carências da época, elas resolveram expandir. Aqui no Sul, faltava Paraná e Santa Catarina em que ainda não foi fundado. O clube completa 60 anos em setembro no Rio de Janeiro e foi criada uma confederação nacional porque já existia uma internacional. Este ano no Rio, acontecerá o quarto encontro dos clubes. Apesar de todo esse tempo pode-se dizer que os clubes estavam estacionados e agora com a criação destas confederações, as sócias resolveram levar adiante, movimentar mais o clube no Brasil porque nos Estados Unidos são mais de dez milhões de mulheres.

Existe uma coisa muito interessante, pois nós, desde que criamos um novo clube, imediatamente somos filiadas a confederação internacional, então lá os Estados americanos se propõem a apadrinhar, nos promovendo lá fora. Fica estabelecido um intercâmbio. Em nosso caso nosso padrinho é Virginia City. Portanto temos que ter conhecimento do inglês porque participamos de encontros anuais. São Paulo foi premiadíssimo várias vezes pelos trabalhos desempenhados. Lá elas têm um centro comunitário que abriga mais de mil pessoas por dia alimentam crianças e pais, dão emprego, cursos etc. São senhoras de alto poder aquisitivo. Dentro dos estados também há esse intercâmbio que acho maravilhoso.

IZZA – Como é que te descobriram e te propuseram a presidência?

JOYCE – Tenho muitas amizades em São Paulo e aqui. Tenho uma amiga que sempre me dizia que me achava Éder. Sempre fui dinâmica e gostei de movimentação. Fiz muitas campanhas e lanches e me tomei conhecida. Bem, esta minha amiga de São Pauto achou que seria ótimo abrirmos um Clube aqui, e elas me escolheram. Vieram em outubro, fizemos um desses lanches no salão de festas do prédio, juntamente com a diretoria de São Pauto, cuja presidente do ano passado hoje é a atual presidente da confederação nacional. Este ano haverá uma nova eleição porque já temos nossos estatutos registrados, nossa documentação está pronta, é norma, é o primeiro passo que se dá na criação e estruturação, (toda a parte de registros etc.). Procuramos advogados, pessoas que entendessem do assunto para que tudo saísse legal.

IZZA – Pelo seu entusiasmo você adora o que faz?

JOYCE – Eu vesti a camisa do Women’s Club. Adorei, foi uma coisa muito boa que aconteceu em minha vida. Você veja, com dois filhos casados que sairam de casa e, de repente comecei a me sentir só. Minha filha mora em Mato Grosso, meu filho, oficial da Marinha esteve fora por dez anos, e só agora reside em Curitiba, então comecei a achar atividades. O clube chegou na hora certa. Eu tenho encontrado muito apoio nas pessoas que me cercam pois elas estão abertas a ajudar porque vêem que há boa vontade de progredir. Este ano fizemos muitos eventos sociais para estarmos unidas e hoje já temos uma agência de Turismo que nos assessora. Fazemos as nossas excursões, com isso as pessoas se sentem felizes.

Temos descontos e nos divertimos. O curitibano apóia muito. Tive muita aceitação. Veja bem, temos muitas instituições, todo mundo faz parte, colabora com elas e de repente você começa com uma nova dentro do Paraná e consegue ajuda das pessoas. Sei que é difícil implantar, mas tive paciência, expliquei e mereci o crédito de todos. O clube não faz distinção de raça, cor, etc, mas é apolítico (não tem nada a ver com política).

IZZA – Sei que você também é voltada às artes, pois vi quadros lindíssimos pintados por você.

JOYCE – Sou artista plástica, faço parte do grupo de artistas plásticos do Sesc da Esquina, há três anos, sempre com o espírito de formar grupos. Acho que o trabalho em grupo é uma coisa muito importante, assim bem antes do Clube, há dois anos atrás eu já estava com duas amigas falando com o diretor do Sesc sobre as dificuldades dos artistas e de repente surgiu o grupo de artistas do Sesc da Esquina. Fiquei e gostei, mas de repente este grupo ficou muito heterogêneo, começou a ficar mesclado aí eu passei a fazer novas técnicas com a Susana Lobo e iniciamos novo grupo, fazendo parte do Grupo da Esquina somente de pintura moderna, então me identifiquei bem e participei de muitas coletivas. Sempre gostei de arte, artesanato e uma época em Cuiabá, dei aula no Sesc de lá. Fui visitar a família e aproveitei.

IZZA – Antes de começar com o Clube, você já fazia filantropia?

JOYCE – Sim, eu fazia visitas ao asilo de velhos São Vicente. Eu me comovia muito com os casos que presenciava. Me lembro que havia uma senhora idosa paralítica, internada pela filha, e totalmente esquecida. Eu ia com uma amiga e todas as quartas-feiras elas nos esperavam para nossas conversas. Nos meus lanches, eu fazia campanhas para arrecadar o que fosse necessário. Bem, essa senhora morreu de tristeza porque a filha nunca mais apareceu. Veja como o mundo tem coisas doidas. Se vemos uma pessoa livre sofrer, é comovente, mas essa pessoa tem liberdade; mas outras não, por exemplo essa senhora.

Senti que lá o maior desespero das idosas é o abandono, a espera de uma visita que não chega nunca, o esquecimento. Às vezes me questiono até que ponto é válida a tua boa vontade em colaborar e fazer caridade por esses casos, que as pessoas se apegam a você como se fosse uma tábua de salvação delas. Mas mesmo assim eu continuo porque é muito melhor tentar colaborar, do que se omitir. Quando vamos a um hospital ou a um asilo sabemos, temos consciência que naquele dia vamos proporcionar certa felicidade, dar um pouco de amor para aquelas pessoas que estão ali.

IZZA – Você faz parte também do Centro Feminino de Cultura?

JOYCE – Faço sim, junto com a Juril Carnascialli, sou a assessora da Susana Lobo ali no departamento de cultura, setor de artes plásticas. Nós duas e a Clotilde Cravo que é a diretora. Esse departamento é subdividido, tem a parte literária de artes plásticas, tem a parte de artesanato agora elas encerram um circuito de palestras muito interessantes. Agora vamos organizar no final do ano uma exposição de pinturas. Eu sempre fiz parte de várias instituições; Santa Rita, Oficina Santana do Capanema, da Associação de ex-alunas do Colégio Santana de Ponta Grossa e do Colégio Santos Anjos de Porto União. Temos ali uma Associação e estamos lutando para a construção de um asilo para idosos ex-alunos. Léa Trombini é a presidente. Quando entramos em um trabalho temos que cooperar e mostrar serviço, pois tempo é a gente que faz. Faço parte de tudo isso, colaboro e frequento. Não me disperso estou sempre em função. A força só existe através do grupo.

IZZA – Existindo tantas instituições e clubes de serviço não seria melhor se houvesse união total entre elas, isto é se fosse uma coisa sé?

JOYCE – É difícil num grupo só porque cada grupo defende um objetivo e uma linha. Este país é tão grande e cheio de necessidade e eu acho que todos podem auxiliar, pois grande parte das mulheres não trabalham e dispõem de tempo para dedicar a alguma causa.

IZZA – Quais seriam os planos para o ano que vem?

JOYCE – A meta do Women’s Club, que deverá ser cumprida no próximo ano é organização de um Bazar. Atualmente a crise financeira está dificultando. Vamos ter aulas de inglês, literatura e pintura. Vamos ter debates sobre economia. Temos pessoas capacitadas para tantas coisas. A união desse pessoal é gratificante porque cada dia descobrimos mais talento em alguma pessoa. Pretendemos ter uma sede e até vamos tentar com os órgãos do governo para que nos cedam uma sala para que possamos pôr em prática nossos cursos, nossos debates, encontros. Por exemplo, a constituição trouxe tantas vitórias para a mulher, então vamos lá, vamos estudar e debater. Existem coisas fantásticas como a delegacia da mulher. A mulher vem conseguindo muitas vitórias dentro do trabalho e mesmo na comunidade e em termos de Brasil.

IZZA – O que você gostaria de acrescentar para finalizarmos?

JOYCE – Que estamos aí, num voluntariado de pessoas de boa vontade, e que é muito importante dar amor às pessoas que estão precisando; asilos de idosos, de crianças. Tem tanta gente precisando que eu acho que as pessoas se unindo tem mais oportunidade de se doar. Colaborar de uma forma ou de outra. Creio que o nosso clube não faz grandes exigências para que as pessoas se associem, somente espírito de boa vontade e voluntariado. Com nosso trabalho conseguimos enfrentar este mundo tão difícil dentro de uma certa compreensão e harmonia de amor e tranquilidade. Temos conseguido isso dentro deste ano de atividades. Temos também nossa parte de recreação, divertimento. A gente sofre um pouco, mas também temos a gratificação através do companheirismo e do trabalho.

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