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Eduardo Virmond

“Curitiba amamenta o amor platônico”, revela Eduardo Rocha Virmond

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Eduardo Rocha Virmond

 

Curitiba, 12 de agosto de 1990.

Escrever a Curitiba, essa entidade concreta, indiferente para quê? Nem sempre Curitiba corresponde as expectativas. Sempre deveria ser melhor, deveria ser mais quente, mais doce, mais confortável – tudo o que aparenta, mas não é. Mais quente: que desastre! Sendo gelada, é menos doce e muito menos confortável.O frio aqui é uma experiência muito assimilada. Sabemos que precisamos de camiseta, calças de lã e tudo o mais que o frio nos obriga a carregar nas costas. Cadê o “amor” curitibano, hein, hipócritas xenófobos da cidade? É impossível senti-lo e muito difícil exercitá-lo.

Diria o poeta Glauco Flores de Sá Brito se vivo, que Curitiba amamenta o amor platônico.

Não poderia ser diferente. Onde está, ó virgem, aquele calorzinho, aquele “atendimento”? Tenho anos e anos de Curitiba, desde que nasci, na rua Comendador Araújo, e ainda não o encontrei. O atraso é melancólico, real e vergonhoso. Não adianta o bonde Jaime, queremos aquecimento! As pessoas morrem de frio, não morrem de ônibus, nós todos morremos um pouco cada inverno, ou deixamos de viver, aguardando o insopitável janeiro – fevereiro – março, únicos marcos da beleza curitibana em flor, que mais se agiganta quando o “café society”está de férias e nós de férias de todos os exibicionistas.

E o que fica na cidade? O Passeio Público, a Rua das Flores, mas é bonito passear no Parque Barigui, parece que você está em Nova York, protegido pelo dia claro. Afinal, tem a Orquestra Sinfônica que vale realmente a pena, assim como a vida musical. Tem os filmes, se você conseguir fechar os olhos, para os curtas-metragem da Fundação. Se você os abrir, terá a surpresa de incorporar a cruzada anti-sexo: ali se aprenderá que o amor e o sexo é coisa porca, suja.

Não é aquela beleza de “La Bocca me bació tutta tremante” de Dante, de “o amor que decifrado nada mais existe valendo a pena e o preço do terrestre” de Carlos Drumond de Andrade. É o contrário, crua realidade da porcaria bruta: o sexo e o curta. E ainda duvidam de que não deve ser financiado esse cinema nacional. A cruzada engrossa as suas fileiras e aí estamos dentro de um novo ritmo que invade os bairros de Curitiba: sejamos religiosos. Há igrejas e seitas mil a escolher, com sexo, musiquinha e tudo. Os Hari-Krishna, em sua pureza, são anjinhos do céu, frente a esse leque de possibilidades. Você pode estar em quatro ou cinco igrejas e mais três religiões, pode faturar, faturar até sempre um novo programa de ação. Se não fossem os sermões, temos os discursos na Boca Maldita. Anfrísio, você não é mais o mesmo.

Reaja, homem!

Por que temos que suportar esses bestialógicos, a pretexto de qualquer insignificância?Avacalha-se programadamente a Boca, antes gloriosa, hoje reduzida a pasto de ataques de verborragia: o idiota “resgatou” (é o último jargão) o seu direito de proclamar qualquer cretinice, berrando em nossos ouvidos indefesos. Isso é a “democracia” que eles entendem.

Não será também o direito de você não ser obrigado a ouvir esses gemidos?

Por falar em jargão, lembrei-me da Universidade. Dizem que em um determinado setor há o império deles. Só falam em “resgatar”, “colocação”, “a nível de” etc. (tenho uma coleção a disposição dos interessados). A esses o Nireu Teixeira chamava de “especialistas em conhecimentos inúteis”.

Descobriu-se, como fazer os concursos bonitinhos, com bancas ideológicas adrede preparadas para o prévio patrulhamento. Quem não for do “grupo”, do “Clube”, ou do “partido”, não entra. Aqui seriam reprovados Einstein (por falta de títulos), Sartre (por ser existencialista), Gere Vidal (por ser reacionário). Não me disse um Reitor da Universidade (no tempo do fecha) que nós somos melhores que eles? (referia-se a Universidade de Chicago). Mas esse não é um defeito só de Curitiba e da nossa Universidade. É importado da Unicamp e adaptado às condições locais.

O Doutro “Me Ufano” vem de capa e espada, desde o Congresso Nacional até a Câmara de Vereadores de penetra como gás lacrimogênio.

E os forasteiros? aqui ninguém é forasteiro, porque não dá tempo. Ele vai entrando, vai mandando, logo se elege vereador, governador, ou reitor. Aceitamos todos. Eles reclamam que o curitibano é distante, recatado, silencioso, pouco comunicativo, indiferente. Isso é quase certo. Esta condição deu nascimento ao curitiboca-espécie degenerada pela mestiçagem, pelo cruzamento ruim, pela ignorância programada, pelo nouveau richismo, exibicionismo. O curitibano é o inverso – não é exibicionista.Quase. Já viu quando ele fala de “tradições”?

Curitiba, Curitiba, tenha pena de nós. Chega de falar bem. Pare com isso! Vamos restaurar o espírito, do Café Belas Artes, a sua mordacidade, impiedosa visão dos acontecimentos, sua ferina crítica dos “costumes”, a crítica destrutiva (que é a única). Não obstante, Curitiba é como a democracia de Churchill, é péssima, mas sem melhor. Pode ter igual. E, se o mar chegar ate aqui, aí ficará tudo perfeito. Era uma aspiração de Ponta Grossa, dizia-se. Por falar nisso, Ponta Grossa, Maringá, Londrina, Cascavel querem ser a Capital do Estado do Paraná. Entram na competição Guarapuava e Ortigueira. Estou de acordo e voto em Ortigueira. Seria o caso de se perguntar se Curitiba quer continuar a ser a Capital, ou será como Nova York uma cidade como outra qualquer. Voto por outra qualquer. Um ilustre advogado de Londrina disse que lá eles ficaram livres da matalotagem que veio com o governo para Curitiba.

Que voltem e realizem o seu antigo sonho. Curitiba não precisa ser capital. Será só sorrisos, com  sua gelada e inarredável nostalgia do mar e de seus perfumes.

EDUARDO ROCHA VIRMOND

Ex- Presidente da OAB

Advogado e Crítico de Arte