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“Medicina é mais missão” fala Dra. Elisa Cecchia de Noronha

Postado em

Curitiba, 30 de setembro de 1989

 

DRA. ELISA CECCHIA DE NORONHA; pessoa querida, simpática, dedica a sua vida à medicina; proprietária do Hospital Santa Brígida, membro do Clube Soroptimista, delegada do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, Dra. Elisa nos conta com simpatia a sua trajetória.

 

lzza – Há quantos anos a sra. é médica’?
Dra. Elisa – Desde 1937. Me formei pela Universidade Federal do Paraná. Naquele tempo as nossas turmas tinham muitos elementos de fora, paulistas, catarinenses, etc. Tanto é que o meu marido, que era da minha turma, era paulista. Era uma turma grande que hoje está dizimada porque perdemos muitos colegas. Este ano perdemos o Monastier, o Lafayete que era clínico geral. Os ginecologistas estão se mantendo e até brincam comigo dizendo que eu estou em cima do muro.

lzza – Nesta época, haviam muitas mulheres fazendo medicina?

Dra. Elisa – Na minha turma, somente duas, e haviam outras turmas que não tinham mulheres e  conforme a mentalidade da época, eles sentiam-se privilegiados quando a turma contava só com os homens. Os professores não gostavam, porque se sentiam pouco à vontade para fazer piadas ou brincar. O elemento feminino tolhia, mas nós vencemos os obstáculos. A minha colega era Janina Wantrova, ela tem inclusive uma filha médica que já trabalhou comigo, mas que hoje está afastada da profissão. Eu quero crer que, da minha turma de médicos, quem mais trabalha sou eu. Quando apareço no hospital, de madrugada, me perguntam brincando: o que é que a Sra. veio fazer aqui? E eu respondo: estou aqui não por dinheiro, mas sim por amizade. Quando essa paciente nasceu eu a atendi e agora vou atendê-la de novo. Para mim é muito gratificante saber que eu ainda inspiro uma certa dose de confiança. Bem, nós nos formamos, foi difícil, porque eu era a única médica militante aqui no Paraná. A Dra. Falce formou-se na 1° turma, com meu marido, o Dr. Pereira de Macedo, mas acontece que ela abriu um laboratório e não fazia medicina de consultório.

Izza – Quais eram os maiores inimigos das mulheres médicas na época?

Dra. Elisa – As mulheres, porque não acreditavam em mulher médica; hoje os nossos consultórios estão cheios. Eu fico tão feliz quando, lá no Santa Brígida, vejo bastante mulheres. Acho que a mulher médica leva vantagem porque você se “abre” muito mais com uma mulher do que com um homem em certos problemas, principalmente no sexual. Ela é mais natural. Às vezes não é nem necessário que eu pergunte, a paciente se abre, conta, faz do consultório um confessionário.

Izza – Como vai o Hospital Santa Brígida?

Dra. Elisa – Este hospital, eu fundei desde o terreno, a construção, acompanhei tijolo por tijolo. Por isso é que eu digo que o Santa Brígida é um filho para mim. Inicialmente ele pertencia somente à nossa família. Minha mãe se chamava Brígida e este é o nome da patrona, mãe e avó dos sócios. Hoje, muita gente pensa que medicina é profissão gratificante; puro engano, porque, em dezesseis anos, o hospital nunca deu um pró-labore. Nós ganhamos daquele paciente que é interno, mas dá só para suprir os gastos. Medicina é mais missão do que profissão. Para mim é missão, cu adoro. Se tiro dez dias de férias, sinto falta. Faço porque gosto e o trabalho que fazemos com gosto, fazemos bem feito.

lzza – A sra. já viu nascer muitos bebês, não é mesmo?

Dra. Elisa – Muitos e acho que eu deveria ter tomado nota. Nem sei quantos eu atendi. Ainda tenho o mesmo entusiasmo que eu tinha antigamente. A medicina, a ciência, às vezes tira um pouco do sentimentalismo da pessoa, porque antigamente a gente ia fazer um parto e não sabia se seria homem ou mulher. Hoje já sabemos antes o sexo da criança. Ainda me emociono muito com as coisas.

lzza – Sobre a sua participação no Clube Soroptimista?

Dra. Elisa – Eu vesti a camisa do clube. Gosto e acho tempo para isso, se bem que às vezes corro um pouco. É como o Santa Brígida, ele me dá preocupação mas não deixo dele. O Clube Soroptimista é um gosto que tenho; na época em que fui presidente do Santa Brígida, encerrei minha gestão fazendo a creche Leonor Castellano que hoje alberga 60 crianças carentes.

Izza – E sobre a Associação Brasileira de Mulheres Médicas?

Dra. Elisa – Eu fundei a associação. Quando eu vou lá e vejo tudo que elas têm e eu não tive quando me formei, facilidade de chegar, conversar, etc., fico feliz. É a melhor dentro do Brasil. Já temos uma casa. A presidente é a Solange Goldmeister. Foi obra minha e, em minha homenagem, lá existe uma placa comemorativa aos meus 50 anos de atividade como médica. Sinto-me querida dentro da Associação.

Izza: Antes de dedicar-se à medicina, qual era a sua atividade?

Dra. Elisa – Eu dava aulas de matemática, que é o meu forte. Tive como aluno, quando pequeno, o Pedro Parigot de Souza, o Desembargador Alceste Macedo. Comecei aos treze anos e, na época, pretendia cursar Engenharia; não cursei porque achei que, para uma mulher, seria mais fácil devido aos preconceitos da época fazer medicina. Passei em 2º lugar e me encontrei. Se eu voltasse a ser menina novamente, minha opção seria a carreira médica.

Izza – E sobre o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher?

Dra. Elisa – Sou delegada, nomeada pelo presidente Sarney. Este Conselho defende os direitos da mulher. Eu fui empossada em Brasília. Quando lá estive, me perguntaram qual seria a minha proposta. A proposta que eu teria a fazer a Constituinte já deu para a mulher – os 120 dias – o direito de férias após parto. infelizmente para a mulher, foi contraproducente, porque dificultou a busca de trabalho; as empresas não aceitam as que estão na idade de procriar. A Constituição nos deu esses direitos e o que cabe ao Conselho, agora, é fazer com que sejam cumpridos. O Conselho deve difundir esses direitos porque as mulheres, muitas vezes, não obtêm porque não sabem defender os direitos que têm.

Então, estive três dias em Brasília, mas como médica; dentro do Conselho vou dedicar-me a aceitar as queixas referentes à saúde da mulher porque, para outros fatos, contamos com juízas para soluções. Acho que me saí bem como representante do Paraná. Até estou pedindo às Associações que apresentem, por exemplo, o exame obrigatório preventivo de câncer – que é lei – mas que o médico faz quando a mulher pede e, geralmente, isso acontece com as mais esclarecidas. A mulher do povo, simples, nem sabe que tem esse direito. É isso que falta para o Brasil. Existem só dois problemas sérios: “educação e saúde”. Sem educação, esclarecimento ao povo, não teremos saúde jamais. Com educação faremos homens dignos porque o homem educado sabe onde vão seus direitos. Vamos convir que são nestes dois problemas que o governo menos trabalha, menos ajuda e menos dispõe de verba. Veja o salário dos professores.

Izza – Quais são seus planos no momento?

Dra. Elisa – Pretendo fazer muitas coisas. O primeiro plano é pedir a Deus que não me permita desfazer aquilo que já fiz. Quero ter muitos planos de vida enquanto a minha cabeça por boa. Isso não é plano, é um pedido que eu faço para naturalmente poder viver trabalhando, doando, dando. Para minha família já não preciso porque estão todos bem encaminhados. Agora já colho os frutos. Um neto médico, outro estudando medicina, já tenho bisneta. Portanto tenho pouco a desejar. Quero ler, estudar, escrever para conservar a cabeça porque se ela permitir o físico acompanha. A minha meta é ainda ampliar o Santa Brígida. Eu gostaria de aumentar o centro cirúrgico e fazer um salão de lazer para que as mães tivessem distração enquanto esperam a hora do parto. Se Deus quiser, logo será feito.

 

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