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“A ARTE E O SER HUMANO” discorre Elke Riedel

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Curitiba, 20 de maio de 1989

ELKE RIEDEL. Além de sua paixão, a música, e especialmente o canto lírico, Elke é um exemplo de força de vontade e dedicação. Recentemente premiada no Rio de Janeiro, na “3ª Bienal de Canto”, ela nos dá nesta entrevista uma lição de vida e perseverança. Esta é Elke. Confiram.

IZZA – Que papel tem a música, em sua vida?

ELKE – Eu lido com a música mais direcionada ao canto. A princípio sou cantora lírica e dou aulas também, porque somente com recitais não se sobrevive. Ensino técnica vocal, tenho inclusive turmas em São Mateus do Sul onde procuro dar musicalização sempre partindo pela voz. O coral infantil também é meu. Este ano estou fazendo bastante recitais com uma pianista, Vera de Domênico. Inclusive fomos no último final de semana cantar em Joaçaba. Já cantamos no Rio Grande do Sul e pretendemos cantar também em São Paulo. Estávamos com a ideia de irmos ao Rio de Janeiro, mas no momento o Rio está meio falido em termos de cultura, por isso não deu certo.

IZZA – Esta técnica vocal abrange a impostação de voz?

ELKE – As minhas aulas não são especialmente de impostação de voz. É mais uma técnica vocal de colocação de voz, nos ressoadores para cantar, mas há uma ligação, porque um ramo desta técnica abrange a impostação da voz. A técnica é a mesma.

IZZA – Aqui em Curitiba, estes cursos não têm a divulgação que merecem não é?

ELKE – Estes cursos a nível cultural, e até o recital de canto, são feitos por determinados órgãos responsáveis. Por exemplo: se eu tenho que fazer um recital de canto, o primeiro passo, é procurar a Fundação Cultural para arranjar uma vaga, depois eles cuidam da divulgação que é feita mais direcionada para locais selecionados, lugares chaves. Enquanto que um show de música popular tem muito mais divulgação devido aos patrocinadores etc. público garantido, os nossos recitais, por causa da pouca divulgação são menos frequentados.

Música erudita é uma música de bom gosto e os brasileiros deveriam ter a chance de ouvir, selecionar e se acostumar com ela. A música erudita engloba vários estilos, antiga, mais moderna, contemporânea, que é um caso à parte, e sofre preconceito dentro da classe de músicos eruditos, mas também existe e é muito válida. Acho que a maioria das pessoas não tem nem chance de participar deste mundo porque os que cuidam da promoção do músico, tendo medo que não dê certo, investem pouco. Se fizessem mais divulgação tudo seria diferente e penso que no início até a propaganda deveria ser um pouco agressiva, depois que o público começasse a frequentar, as portas estariam abertas.

IZZA – Você começou a cantar, cedo?

ELKE – Não. Iniciei com o piano aos 7 anos de idade e até os quinze anos continuei, depois comecei a me desinteressar do instrumento, vi que não era bem aquilo que eu queria. Me dediquei à flauta doce. Fiz Belas Artes, porém a flauta doce, é um instrumento limitado em termos de repertório e que foi passado para trás pela flauta transversal. Veja, ninguém mais escreveu nada para ela. A seguir passei para o violino, mas como eu tenho problema no braço direito e consequentemente eu não conseguia segurar o arco, eu teria que ter muito trabalho extra para obter algum resultado.

Aprendi também clarinete, até que fiz uma matéria nas Belas Artes de Técnica Vocal e o canto me chamou atenção. Conversei com a professora e entrei para o 1º ano (são 4 anos) e no final do ano entrei já no Superior e atualmente estou no terceiro, onde só faço a matéria de canto porque nas outras já sou formada. Me encontrei, porque era exatamente isso que eu estava procurando.

IZZA – E sobre o concurso que você venceu?

ELKE – Este concurso acontece no Rio de Janeiro de dois em dois anos, o 3ª Bienal de Canto. E dedicado à música de câmera que pouca gente, no canto, faz. Geralmente eles fazem música de ópera, mas eu optei pela música de câmera, e tirei o segundo lugar. Fui a única premiada do Paraná. Aqui de Curitiba participaram mais duas pessoas, a Laura Ibiré, finalista, e Ademir Pinto da Silva, semi-finalista.

Foi um concurso de nível excelente na final e na semi-final, e a experiência foi boa porque os palcos do Rio de Janeiro possuem uma acústica fantástica, inclusive a decoração é diferente e isso influencia positivamente, há mais formalidade. Houve premiação em dinheiro e diversos convites para recitais este ano. O concurso foi somente de canto e o júri foi composto de autoridades ótimas a nível de Brasil. Foi muito bom, porque sou a primeira paranaense a ganhar esse concurso da Bienal de Canto, que em nível musical é dos melhores. São analisados detalhes, afinação, colocação de voz, respiração, estilo etc.

IZZA – E o seu trabalho em São Mateus do Sul?

ELKE – Eu vou às quartas-feiras e passo também a quinta-feira. Na quarta pego o Coral Infantil e na quinta dou 8 aulas para adultos. E um trabalho para a Petrobrás. A infra-estrutura é muito boa para que possamos trabalhar bem.

IZZA – Existe muita diferença entre coral adulto e infantil, quanto ao ensino?

ELKE – Há uma diferença muito grande. No coral adulto as vozes já estão adultas, ou a pessoa é afinada ou não é. A criança em geral tem dificuldade de afinação, por isso é imprescindível o piano para animar, segurar e ainda tem o seguinte: o coral infantil a quatro vozes é muito difícil porque a criança se dispersa frequentemente. Para este trabalho deve haver o regente e o pianista. O coral infantil da Petrobrás já existia antigamente, e era tão bom que até chegaram a fazer gravações no Rio de Janeiro. A regente se aposentou e ele foi desativado, até que eu soube e entrei para reger. Estamos começando. E um trabalho emocionante, as crianças tem de seis a quatorze anos.

IZZA – Porque até os quatorze anos?

ELKE – Porque daí por diante começa a puberdade e para os meninos, a voz muda. Eles têm que ficar neutros até que a voz fique adulta, para que ela se defina se vai ser aguda ou grave. Se forçarmos nesta fase, a voz pode ser prejudicada, podem surgir sequelas.

IZZA – O curso de canto é muito procurado aqui em Curitiba?

ELKE – Interessante para quem gosta. Reconheço que não é uma atividade vital, é só para quem realmente curte. Eu dou a aula, mas o desenvolvimento depende muito o aluno, exige tempo e dedicação. O que acontece muitas vezes é que a pessoa inicia, sente a responsabilidade e desiste. Para desenvolver uma musculatura especial, é preciso direcionamento mentalização, porque ê muito psicológico. Deve haver empenho, não são todas as pessoas que têm constância.

IZZA – A que você atribuiu o fato da clienta ser pouca?

ELKE – Em primeiro lugar vem a questão econômica mesmo, atualmente o dinheiro está mais escasso, então as pessoas selecionam mais as coisas. Por exemplo, aulas de inglês que eu também dou, são úteis até para a pessoa ser melhor remunerada profissionalmente, ao passo que aulas de canto não, é apenas um gosto, uma satisfação pessoal. Se a pessoa quer ser cantor mesmo, uma profissional, procura a Escola de Belas Artes que tem toda aquela formação. Os que me procuram querem aprender para seu próprio prazer. É como fazer ioga, e da continuidade das aulas, dependem os objetivos do aluno.

IZZA – Até você chegam muitas pessoas com problemas de voz?

ELKE – Claro que sim. tenho alunos que cantam em bandas, em conjuntos musicais e chegam até mim com problemas sérios, porque a coisa ê muito agressiva. Se a pessoa não tem uma maneira certa de tratar da voz, ela se prejudica. Eles vêm com o objetivo não de melhorar a voz, mas sim, preservá-la. Depois que adquirem estes meios, eles se vão, porque aí acabou também a minha missão. Minhas aulas são preparadas e individuais, o que facilita o aproveitamento do aluno.

IZZA – E quanto aos cantores profissionais, devem continuamente trabalhar a voz?

ELKE – Com certeza. Quem assume a profissão de cantor seja qual for o tipo de música, deve fazer técnica vocal, do contrário será difícil manter a voz, num nível de qualidade aceitável. Quem conhece esta técnica sabe que existem diversos cantores, inclusive há ano em evidência, que estão com a voz em condições bem inferiores, áspera, diferente. No começo tudo é bom, e além disso existem alguns que têm um potencial incrível.

A verdade é que é impossível um pessoa manter a voz em perfeitas condições por toda a vida se a usa frequentemente. Há o desgaste, o atrito muscular, e se há o direcionamento errado da coluna de ar, as cordas vocais que são músculos, vão se desgastando, mudando de configuração, por isso a técnica vocal, é como uma manutenção. Veja o atleta se ele não treinar, tiver a sua técnica, regride em termos musculares e assim por diante.

IZZA – Foi difícil para você chegar ao ponto que aqui conquistou como soprano?

ELKE – É necessário bastante trabalho, abdiquei, de muitas coisas, mas se você tem a técnica e mantém, não ê tão difícil, assim. Eu sou a única cantora que conheço no Brasil inteiro, deficiente física. Bem, pode ser que exista gente com muito talento porém com dificuldade de acesso às coisas por aí. Inclusive eu lutei muito, pois para mim foi bem, bem difícil.

Nestes quatro anos que fiz faculdade, foi na base de ir e voltar de táxi. Se as autoridades incentivassem mais o estudo seria melhor. Em outros países há mais facilidade. Já acho ótimo que existem Ônibus adaptados para deficientes físicos e aproveito nesta entrevista para contar para os deficientes que ainda não conheçam. Estes Ônibus quase ninguém usa. Os próprios deficientes têm preconceitos. Todos poderiam usar. No meio foram tiradas algumas cadeiras, só ficaram os pilares onde são amarradas as cadeiras. No meio há uma plataforma que sai.

Este ônibus tem sempre uma assistente social para atender. A 1ª experiência foi feita em dezembro do ano passado e em janeiro eles começaram a circular. E uma coisa importante a nível urbano e que não foi devidamente divulgada. Uma época eles seriam desativados por falta de usuários, então fizemos um protesto e eles continuaram a funcionar.

IZZA – Este fato de você ser deficiente interferiu em sua carreira?

ELKE – Não me atrapalhou, não sinto preconceito da classe musical, provavelmente porque eu devo ser boa no que faço. mas admito que me dificulta somente no problema de transporte. Todas as pessoas cantam de pé, mas eu canto sentada, eu tive que adaptar outra postura porque, cantando assim, tenho que usar outra musculatura. E uma questão de adaptação. Lógico que demora porque não existe quem possa dar aulas de experiência, consequentemente eu mesma tive que fazer um trabalho baseado na minha própria. Sempre há muito o que aprender.

Estando eu sentada, preciso sempre de um banco para colocar os pés, para que a posição favoreça a ação do diafragma. Somos pessoas normais, que necessitam de recursos. Os deficientes ocupam 10% da população, são capazes de fazer tudo, salvo coisas que as barreiras da deficiência impedem. Temos grande pintores que sofreram as consequências da talidomida em 1960 e que pintam com os pês e com as mãos. Fazem pinturas de um valor artístico incrível.

IZZA – Para finalizarmos, o que você gostaria de dizer aos leitores?

ELKE – Eu gostaria muito que a nossa terra chegasse a um ponto de saber reconhecer o valor da arte. do músico, o processo pelo qual eles passam, o trabalho que vem por trás. Que as autoridades dessem realmente a oportunidade do povo tomar conhecimento destas coisas, porque o artista vive num mundo â parte e necessita procurar os que reconhecem seu valor para que sua escalada seja mais difícil. Não há interligação entre as artes.

Acho que isto é um processo da nossa civilização. A arte é muito importante na formação do ser humano, porque os toma bem mais sensíveis. Por exemplo, se vemos um quadro às vezes ele nos toca profundamente, não podemos definir mas esse ponto age sobre nós, e de tal forma que podemos mudar a nossa forma de ver as coisas, de viver. As pessoas que convivem com a arte são mais felizes.

 

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