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“A maternidade nasce com as mulheres” diz Ilza Maria Caldeira

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Curitiba, 27 de Maio de 1990

 

ILZA MARIA CALDEIRA; ela é mãe de Ana Paula, o primeiro bebê de proveta da América Latina, com tecnologia sul-americana. O assunto é interessante e Ilza nos fala hoje, como foi e como tudo tem sido até agora. Esta é Ilza, Sra. Dr. José Antonio Caldeira.

 

Izza – Em que área você está atuando no momento?

llza – Eu trabalho na Santa Casa de Misericórdia, na Provedoria. Sou assessora do Dr. Ivo Arzua e trabalho com a Secretária Médica. Eu trabalhava na parte técnica do exame do coração, a cineangiocoronariografia. Quando eu engravidei da Ana Paula em 1984, em função do Raio X, fui afastada e fiquei emprestada à Provedoria pelo período de gestação. Enfim, me adaptei ao serviço, acabei me envolvendo e o Dr. Ivo Arzua não me deixou voltar mais para o antigo setor. O hospital apesar de não ser uma empresa, funciona como tal. Temos que estar sempre atentas a todos os problemas financeiros e tudo o que envolve a área hospitalar. Hoje em dia estou perfeitamente integrada ao setor e gosto do que faço. No restante do dia me preocupo com a sucessão dos problemas diários que vão se apresentando.

lzza – Como você sempre conseguiu trabalhar, tendo tantos filhos?

Ilza – Primeiro, porque a necessidade obriga. As responsabilidades são grandes, os filhos vão crescendo, cada um com seu nível de necessidades pessoais; é um período em que a gente tem que se dedicar ao crescimento deles ao desenvolvimento como um todo, seja em sua formação, escola, aulas extras, etc., o que acaba exigindo muito da mulher que tem muitos filhos. Depois, eu acho que a mulher tem que trabalhar, porque é muito importante. Acho que as mulheres que trabalham só em casa, têm uma atividade enorme e acabam não sendo devidamente valorizadas. No momento em que a mulher decide trabalhar fora encontra além destas atividades que ela continua a desempenhar, uma forma de ser olhada com admiração e respeito – o reconhecimento é bem maior.

lzza – Como vai o primeiro bebê de proveta da América Latina?

Ilza- Quando resolvi ter o meu bebê eu nem sabia que seria o primeiro bebê de proveta da América Latina. Na realidade, nós começamos a perceber algo diferente pelo interesse dos médicos no andamento de minha gravidez. Só percebi isso no segundo ou terceiro mês. Nunca perguntei quantos tinham nascido. Havia uma moça em Foz do Iguaçu que tinha chegado somente ao sexto mês, nenhuma tinha ainda conseguido ir até o final. Eu e meu marido fornos tentando para que nada fosse divulgado à imprensa. Não por nós, mas a gente nunca sabe como as idéias se passam na cabeça das pessoas. Da mesma forma que você vai encontrar muitas pessoas a favor, muitas estarão contra. E um assunto muito controvertido, a Igreja no meio dando opiniões contrárias, etc., então achamos que não valeria a pena a gente se expor, não haveria necessidade. O nosso objetivo era o nosso bebê! Quando percebemos que realmente não fugiríamos da divulgação do fato, avisamos as nossas famílias para que todos se preparassem. Se a Ana Paula não tivesse sido o primeiro bebê de proveta da América Latina, com tecnologia sul-americana, ninguém saberia de nada.

Izza – Como é que vocês tiveram coragem para enfrentar tudo isto?

Ilza – A vida jamais me deixou com medo de nada. Posso até chorar bastante em determinadas fases, mas logo em seguida estou achando um caminho para me reerguer. O Dr. Nakamura começou este trabalho em 1982, fiz urna consulta e os exames preliminares. O tempo foi passando, o Caldeira foi para Itália e no seu retorno, no início de 84 fornos para São Paulo fazer a fertilização “in vi-
tro”. O Dr. Nakamura até costumava me dizer que a parte psicológica das pacientes passou a ser atendida depois que cu passei por lá, porque cu tinha a convicção que sairia da clínica grávida. Estava determinada, sem nunca questionar nada. Até acho estranho, porque recebo sempre cartas de pessoas de todo o Brasil perguntando detalhes, se dói, etc. Isso nunca me importou porque se você quer realmente uma coisa, não pode se deter cm detalhes, tem que ir à luta porque senão a tua própria mente vai te bloquear.

lzza – No período da gestação você não se sentiu apreensiva?

llza – Não. Me senti bem normal. Inclusive, a equipe sempre estava preocupada e me ligavam continuamente dizendo que eu teria que tomar remédios que prevenissem o aborto porque o índice nas fertilizações “in vitro” era alto. Não existe uma literatura ampla a respeito, mas eu achava que não teria que tomar nada. A gravidez é absolutamente normal. Como eu estava passando maravilhosamente bem, achei que não tinha nada que justificasse os remédios. Eu continuei trabalhando e dirigindo até o final. Foi urna gravidez ótima, ela nasceu superbem.

lzza – E o nascimento?

llza- Foi uma sensação ótima, principalmente em relação ao meu marido, porque eu já tinha cinco filhos e dele, era o primeiro e eu sabia que seu emocional estava para explodir neste momento. Afinal, era um bebê que em princípio era um sonho tão distante e que agora se tornava realidade. O nascimento foi maravilhoso, com muita choradeira, etc.

lzza – Você tem tido conhecimento de outros casos ultimamente?

Ilza – A última vez que conversei com o Dr. Nakamura foi em dezembro do ano passado, na clínica de Planejamento Familiar , também existem outros médicos que trabalham nessa área. Na época eles tinham 39 bebês que são chamados “Baby at horne”, que são os bebês que já estão em casa, seguros, já com alta hospitalar, sem problemas.

Izza – Quando a Ana Paula nasceu a imprensa tumultuou muito o acontecimento?

llza – Muito, e quando chegou dezembro, o repórter da Veja veio até aqui fazer a retrospectiva do ano. Daí pensei: que bom que o ano está acabando e a Ana Paula será esquecida, porque a imprensa invade a nossa vida. Ele disse: eu não quero desanimá-la, mas a vida toda a senhora dará entrevistas sobre o assunto. Foi até interessante porque eu nunca tinha tido contato. Fui procurada no final do ano para uma “retrospectiva da década”, onde a Globo montou o arquivo. Também com o Ney Gonçalves Dias. Quando acontece qualquer coisa com os bebês de proveta no mundo, já querem saber como está a Ana Paula. Se sai uma notícia hoje, depois de dois ou três dias estão ligando para saber dela. A notícia bombástica sempre sobra para o primeiro. No ano passado saiu na Manchete uma reportagem. A Globo uma vez ficou o dia inteiro lá em casa pesquisando.

Izza – Como a criança encara tudo isso?

Ilza – A Xuxa nos convidou para irmos ao programa. Ana Paula estava feliz, dançou com a Xuxa e irmos lá foi uma coisa muito boa. Ela não tem nenhum estrelismo, nunca se refere a si própria, por isso sempre está a vontade. Entramos de uma maneira especial, ela ganhou presentes. Adorou. Está acostumada com isso, apesar de só ter 5 anos. Acho importante que eu consiga passar para ela que tudo o que aconteceu foi uma coisa muito bonita porque se eu me intimidar na hora de dar uma entrevista, se ela vir que eu entrei em pânico, não será bom. Ela tem que saber que foi muito bom ela ter nascido. Quando as mães me ligam ou escrevem, eu explico: esta mãe quer muito um bebê como você e como todos os outros, e como queríamos a tua vida, precisamos da ajuda do Dr. Nakamura; essas mães também querem a ajuda do tio para terem um bebê. Ana Paula tem que se sentir tranquila nessa situação, todas as perguntas ela não faz. Tenho muitas fotos da época da gestação. Por isso te digo que a fertilização “in vitro” tem um desenvolvimento normal porque nenhuma criança tem a foto do pai e da mãe na hora da concepção, é claro. Vai ver a foto da barriga da mãe. Então ela não está hoje preocupada como entrou e sim como saiu lá de dentro … A criança vê tudo, não existe nada que ela não possa acompanhar. Ela faz perguntas profundas para sua idade, gostosas de responder. Eu que tive tantos filhos sei que todos têm uma fase em que fazem perguntas interessantes, mas sei que é porque ela é o nenê de todos, as perguntas saem mais conscientes pois só convive com adultos.

Izza – O que te gratifica?

llza – Sinto-me grata em relação ao Dr. Nakamura por tudo. Ele diz que Ana Paula é a estrela de sua vida porque depois de 13 anos de pesquisa em cima deste trabalho, de repente veio a menina. Ela representa para ele um triunfo destes anos todos, tanto é que teve um Congresso de Reprodução Humana em São Paulo, fomos convidados e ele homenageou a Ana Paula com uma placa de prata em agradecimento a sua vinda. Ele afinal, figura hoje como um dos maiores especialistas do mundo nessa área. O interessante é que ele viaja pelo mundo todo e traz para ela roupas de Marrocos, Japão, etc. Ela adora! No ano passado, no dia do aniversário dela, ele ligou de Paris, conversou e perguntou o que ela queria ganhar. Existe um relacionamento gostoso, uma cumplicidade.

Izza – Esta fertilização “in vitro” está ao alcance das mulheres que querem ter um bebê?

Ilza – Em tudo isso, infelizmente, existe o fator custo e muitas mulheres me ligam pedindo se eu posso interceder para que fique mais barato. Na realidade, neste sentido, pouca coisa se pode fazer porque quase tudo que se usa neste campo da medicina é importado. Não existe nada nacional e isso eleva os custos de um procedimento desta natureza. Na medida do possível eu encaminho as mulheres, Hoje nem sei quanto sairia mas infelizmente, para a massa da população tudo é caro. O ideal seria que nosso governo tivesse um programa de controle familiar e outro programa que pudesse dar a essas mulheres que não podem ter filhos a condição de acesso a um tratamento desses. Sei às vezes de dramas familiares enormes, mães que perdem o único filho ou por um motivo ou outro não conseguem mais engravidar sem a existência dessa ajuda extra. Problemas enormes seriam solucionados. Isso nosso governo está longe de conseguir, mas seria interessante se as pessoas que desejassem fossem auxiliadas.

Izza – Para finalizarmos, o que você gostaria de acrescentar?

Ilza – Para as mães que desejam ter o seu filho, eu acho que primeiro deve existir fé, saber que é possível, que a partir do momento em que você sonha com alguma coisa deve ter a determinação de caminhar em busca deste sonho, ir à luta mesmo que seja difícil, superar os empecilhos sem medo, acreditando que isso pode acontecer. Você pode esbarrar numa série de fatores, mas é gratificante. Eu fui homenageada por Deus no momento em que ele me deu a Ana Paula. O resto são coisas do mundo, simples que qualquer pessoa pode ganhar. Qualquer homenagem que eu possa receber será comparada ao fato de eu ter conseguido. Se eu tivesse que tentar de novo, certamente eu faria. Toda vitória é boa se dividirmos com outras pessoas. Às vezes eu ficava meio apreensiva por estar expondo minha vida, hoje eu já entendi o porque disso; é porque realmente o fato significou esperança para muita gente. Hoje eu sinto, nas mães que me ligam, a busca de uma esperança. Fico feliz por poder passar para tantas mulheres uma força nesse sentido. A maternidade nasce com as mulheres mesmo que ela não chegue a ter filhos. Existem as que em sua infertilidade sofrem demais. Quero deixar registrado que a melhor foto de nascimento da Ana Paula foi publicada no Correio de Notícias, na primeira página. Foi linda.

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