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“JORNALISMO DE AMIZADE E TRADIÇÃO” afirma Juril Carnascialli

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Curitiba, 1 de abril de 1989

JURIL CARNASCIALLI – Jornalista desde 1949, muito querida e respeitada por todos. Colunista da Gazeta do Povo há 33 anos, Juril foi uma das primeiras mulheres que atuaram neste campo. Presidente do Centro Feminino de Cultura, presidente do Educandário Curitiba, Diretora da Cruz Vermelha, presidente do Serviço José Rubens Lima entre outros, Juril sempre encontra tempo para atender a quase todos os convites e compromissos sociais e ainda fazer filantropia. Esta é Juril Carnascialli.

 

IZZA – Quantos anos de colunismo Juril?

JURIL – Na Gazeta do Povo. 33 anos, mas comecei o jornalismo em fevereiro de 1949.

IZZA – Devido aos preconceitos da época, não era difícil para uma mulher seguir a carreira de jornalista?

JURIL – Não era fácil porque antes não se acreditava muito nas mulheres. Havia poucas jornalistas e uma das poucas que já atuava neste campo era a Rosi Cardoso. Atualmente, se entrarmos numa redação, a grande maioria é mulheres. Elas estão dominando o espaço e demonstrando seus valores. Apesar de não ter sido fácil, eu sempre contei com o apoio de meu pai. um jornalista experiente, de muitos anos, fundador da Gazeta do Povo, fundador da Revista Guaíra, onde iniciei o meu trabalho. Reconheço que tive uma força muito grande, e uma enorme vontade de escrever desde criança, pois desde menina sempre me destaquei pela facilidade de redação.

Na escola primária, recebi prêmios pela melhor composição. Eu já demonstrava o meu dom porque acho que isto nasce com a gente, claro, podemos aprimorar com o tempo nossos conhecimentos de português, gerais, de cultura, mas a maneira de escrever vem desde cedo. nasce com a pessoa. Veja só, na minha família somos quatro irmãs, todas tiveram a mesma educação, nasceram no mesmo berço mas a única que se interessou em seguir carreira, fui eu, as outras nunca tiveram esta tendência. Me recordo que eu adorava ler e vivia agarrada nos livros. Passava as férias inteiras me dedicando à leitura e, convenhamos que na ocasião a prática da leitura não era muito estimulada. Quando comecei a escrever, algumas pessoas comentavam que não poderia ser eu que havia escrito as matérias, o que não deixou de ser um enorme elogio para mim, porque pensavam que era meu pai.

IZZA – Na Revista Guaíra você fazia a parte social?

JURIL – Eu escrevia algumas reportagens e a página feminina. Em alguns artigos, eu usava pseudônimos para não aparecer muito. Na Gazeta, eu assinava somente JC para evitar que pensassem que era meu pai quem escrevia para mim. depois por influência de um tio, comecei a assinar o meu nome, Juril, e mais tarde Juril Carnascialli. Nunca usei o Plácido e Silva para não parecer que eu estava usando um nome já tradicional em jornalismo. Eu sempre quis vencer pelo meu esforço.

IZZA – Qual foi a primeira reportagem social que você fez?

JURIL – A primeira que eu fiz foi de uma prima, a lima Cabral Silva que casou com o Paulo Spoerbe, e a segunda foi da minha amiga de infância Lurdes Canet e de Jaime Canet. Quando eles casaram há 40 anos eu tive o prazer de fazer também uma reportagem. Quando comecei minhas reminiscências há algum tempo, reproduzi na íntegra estes dois casamentos.

IZZA – As reminiscências são muito lidas, não é?

JURIL – Todos adoram, porque mexe com três gerações. Ali você lê notícias de seus pais, avôs, tios. Muitas pessoas já faleceram, mas os filhos e netos acompanham com muito carinho porque é emocionante. Eu comecei no ano retrasado e foi um sucesso, depois parei por falta de espaço, porque você sabe que a Gazeta tem muita circulação e inúmeros anunciantes. Quando fiz uma pausa, recebi muitos pedidos então resolvi voltar na medida do possível. Estou pensando em fazer na revista “O Momento de Informar” mas ainda estou pensando.-

IZZA – Você guarda tudo o que escreve?

JURIL – Guardo, colo em cadernos. Tenho quarenta cadernos de recortes com todos as notas de cada ano que atuei e por isso é fácil de achar. Apesar do amarelado dá para ler.

IZZA – Como surgiu a ideia da revista “O Momento de Informar”?

JURIL – Para falar a verdade, nós já havíamos tido uma revista, a Guaíra fundada em 49. Trabalhei nela até 55 ou 56, depois, tivemos problemas porque naquela época as pessoas não acreditavam em re- vista, a indústria e o governo também não. então sofríamos bastante porque o apoio, os anúncios, as publicidades eram difíceis de arranjar. O paranaense é assim, não acredita no que é nosso. Dão milhões para fora, Rio, São Paulo etc, e aqui afogam, não dão condições. Sei que o único jornal que tem apoio maciço é a Gazeta, mas os outros realmente batalham.

Veja, a Revista da Guaíra sofreu e parou por falta de condições e depois por infelicidade, a nossa editora pegou fogo e perdemos tudo. Era uma revista espetacular. Nunca no Paraná se fez uma revista tão boa, e ela na época era considerada superior a revista “O Globo” de Porto Alegre. Tinha conteúdo, mas não concorria com a “Manchete”, ou com “O Cruzeiro” porque estas eram sensacionalistas. A nossa era mais dirigida, cultural, e desde que acabou eu jamais havia pensado em abrir outra, porque neste ínterim me dediquei ao magistério, à beneficência e ao jornalismo. Há uns meses minha amiga, Eli começou a falar em abrir uma revista comigo e eu me animei.

IZZA – Tua profissão tem te gratificado?

JURIL – Sim e muito, porque eu nunca fiz como uma empresa comercial, e sim um jornalismo de amizade, tradição jamais com interesse econômico, sociais ou políticos. Escrevo quando sou convidada, quando eu conheço e quando sinto. Pode ser que a minha opinião seja diferente das demais, mas mesmo assim, nunca me deixei influenciar por nada e com isso eu consegui uma credibilidade muito boa e um grande número de amigos. Nestes quarenta anos, as melhores amizades que fiz foi em função do jornalismo porque você sabe que existem amigos, e pessoas interesseiras, que vivem em função de colunas sociais e outras que têm fixação. Acho que quem realmente é notícia, não tem só este objetivo na vida e sempre aparece.

Além disso, o jornalismo tem me proporcionado momentos de muita satisfação e alegrias, principalmente nas fases difíceis que tive na vida. Quando perdi meu pai, depois meu marido e logo depois a minha mãe, se não fossem os amigos que consegui conquistar, (porque acho que amigos se conquistam) nestes anos todos, eu não sei se teria forças de ter continuado, porque às vezes com sofrimento, mágoa, a gente perde o estímulo. Eles me apoiaram, me animaram a não deixar de escrever porque acham que eu registro os acontecimentos mais importantes da família curitibana.

IZZA – Eu li uma entrevista sua, na qual você dizia que só escreve sobre as pessoas que conhece.

JURIL – Realmente, porque como é que eu vou escrever sobre quem não conheço? Também não escrevo quando não sou convidada para as festas. Muitas pessoas fazem a festa e depois mandam pedir que eu publique, mas eu não faço, porque não estive presente e não conheço. O espaço é até pequeno para meus amigos todos. O meu círculo é enorme e muito bom. Já cheguei a ter quatorze convites num dia só e confesso que, às vezes, não consigo comparecer a todos. No sábado passado tive três casamentos e fui em dois na Igreja e no terceiro, na recepção, porque são três pessoas amigas e eu não poderia deixar de comparecer.

IZZA – Você acha que aqui em Curitiba existe rivalidade entre os cronistas?

JURIL – Acho que não, eu não sinto comigo e também não sinto com meus colegas porque sou da seguinte opinião: cada um tem seus leitores, cada um tem seu estilo e o sol nasceu para todos. Até vou te contar um fato que muito me emocionou: Eu estive num sábado em um almoço na casa da Aziale Moisés, estavam também o Cláudio; e o Wilson e conversando com ele, falou: “Eu quero muito bem à Juril por que quando eu aqui cheguei, ela foi a 1ª jornalista que me deu apoio, amizade, que me prestigiou, depois ouvi o Cláudio conversando com o Juca Godoy e com a Ediluz, me elogiava por eu também tê-lo prestigiado no início. Fiquei feliz e acho que um, deve apoiar o outro e eu não tenho problemas porque sempre me dei bem com todos os colunistas, jamais tive problemas.

O Dino me chama de madrinha porque acompanhei o seu começo. Também o Kalil eu conheço desde menino: era meu vizinho, amigo da família e eu o respeito muito. Com o Carlos Jung, sempre me relacionei bem, o Eddi Franciosi trabalhou comigo e com meu pai na Revista do Guaíra. O Ruizinho Barroso é um amor. Sou amiga da família dele. Então você vê que todos eles me tratam bem e entre nós há uma troca com a maior cordialidade. Isso é maravilhoso porque entre os jornalistas deve haver este intercâmbio, este entrosamento, apoio porque se, às vezes, não posso noticiar por ser a minha coluna somente no domingo, passo para um colega. Isso é jornalismo, um apoiando o outro, prestigiando. A Mary Shaffer fez um poema para mim por ocasião dos festejos dos meus quarenta anos de jornalismo que muito me sensibilizou. Ela foi sensacional comigo.

IZZA – Além do jornalismo você faz parte de diversas entidades assistenciais. Como você consegue coordenar tudo?

JURIL – É verdade, eu participo de mais de dez entidades assistenciais e sou presidente de quatro. Inclusive agora vamos fazer um desfile em benefício de duas entidades que atualmente eu estou presidindo porque elas estão necessitado de auxílio. Uma, é o Serviço José Rubens Lima, que funciona no Hospital de Clínicas e mantém a maior UTI infantil da América Latina. O serviço é inteiramente gratuito, a aparelhagem é sensacional e a equipe médica é altamente qualificada. É chamada UTI Pediátrica Hospital de Clínicas, aliás esta é uma mágoa que tenho, porque o serviço foi fundado há 30 anos pela nossa família a pedido de meu sobrinho que morreu de câncer.

Nós fizemos o serviço e ele cresceu tanto que, foi convidado a funcionar no Hospital de Clínicas, e lá está há 25 anos. Há uma sala com a placa do nome dele, mas, nasceu o centro de pesquisas e ensino de pediatria que é uma continuidade deste serviço e quando se fala em Hospital de Clínicas, UTI pediátrica nunca se menciona o Serviço José Rubens Lima e isso é uma injustiça, porque nós da diretoria não precisamos aparecer, mas o nome do serviço teria, porque ele deu origem a essa UTI infantil e a origem não deve jamais ser esquecida.

IZZA – Juril você não acha que isso não está sendo devidamente divulgado?

JURIL – Eu tenho divulgado, mas acho que teria que ser mais mostrado. Você tem razão, porque é um serviço inteiramente gratuito e é o único na América Latina que tem toda a aparelhagem que nós temos. Lá, as crianças não ficam nenhum segundo sozinhas. Sei que estou me estendendo demais no assunto, porque tenho uma fixação por este trabalho, e há trinta anos sou presidente fundadora. A vice- presidente é a Maria de Lurdes CaneL Minha irmã Josil Plácido e Silva Lima, a mãe do menino é a secretária, o tesoureiro é o Dorival Costa que é médico do serviço, a vice também é a Laura Braga, esposa do prof. Homero Braga, um dos fundadores, o dr. Catsi, dra. Leila Marinone. Neste desfile, uma parte da renda será destinada para este atendimento e a outra parte vai para o Posto de Puericultura Darci Garbers do qual também eu sou presidente. É um ponto excelente de atendimento médico e odontológico e todo gratuito.

IZZA – Como será este desfile?

JURIL – A Maria Chica por intermédio da Maria Cecília de Leão Rosenmann, que é um encanto de pessoa, apoiou, pondo seus modelos à disposição. Vão desfilar mais de 50 crianças e depois a Iara Soares mostrará seus modelos em couro. O desfile será bem alegre, um sucesso. Eu sempre tive apoio do curitibano inclusive do Clube Curitiba que cedeu o salão sem taxas, para colaborar. Isso é lindo. A diretoria sempre está pronta para ajudar.

IZZA – Juril você uma pessoa constantemente homenageada, fale-nos sobre isso.

JURIL – Fui sim e nem sei quantas vezes. Mulher do Ano, Mulher Destaque na Cultura, Dama do Ano, Vulto Emérito de Curitiba entre outras. Cada homenagem é uma emoção diferente, mas posso dizer que uma das que mais me emocionou foi a do ano passado, quando um grupo de amigos organizou um jantar na Mansão da Glória para festejar a entrada do quadragésimo aniversário de jornalismo. Eu esperava um grupo pequeno e quando cheguei me surpreendí com o número de pessoas. Foi lindo, lindo. Marcou mesmo, porque eu não esperava realmente.

IZZA – O que você pensa sobre a situação atual?

JURIL – Como mulher, mãe e avó. acho que a mulher tem se conscientizado da sua importância, de seu papel, a família na sociedade, pois onde não há tradição não existe respeito nem continuidade. Atualmente sentimos com tristeza que a cada ano que passa, tudo que existe de bom, está sendo destruído. É corrupção em todos os setores, político, social, comercial e isso é tão degradante que nos preocupa. Então eu penso que a mulher tem um papel bastante importante, como mãe, de orientar essa nova geração. Temos que conservar a tradição, do respeito e honestidade, principalmente, nesta parte do caráter porque não há mais respeito nas novelas, nos artigos, na vida pública, confundem liberdade com licenciosidade.

A imoralidade está tão grande que a gente sente que se não fizermos uma campanha neste sentido, o País caminhará para o caos. A nossa responsabilidade é zelar pelo futuro desta geração que em por aí. Outro ponto que acho triste é esta impunidade. Não sou contra a liberação da censura desde que ela seja discreta, porque a liberalidade está demais. A vida deve ter o lado belo, humano, de respeito, de religião de família, e estão acabando com tudo, pois hoje em dia ninguém mais sabe o que é moral. Por isso resolvi fazer a revista, para levar uma boa mensagem para as famílias, porque a família é a base de tudo e, sem tradições, o mundo não pode ir para a frente. Só sei que algumas pessoas hoje, não são mais responsáveis por nada, desconhecem as obrigações, só querem direitos sem deveres por isso vejo o futuro negro para a nova geração. Isso tem que ser combatido.

IZZA – Você acha que está havendo um abuso por parte dos meios de comunicação?

 JURIL – Muitos confundem a liberdade. Não sou contra a liberdade de imprensa, mas sou contra o jornalista que não tem consciência de suas limitações. Eu sempre procurei construir e nunca destruir. Infelizmente há jornalistas, e jornalistas, as duas espécies. Alguns se aproveitam de sua capacidade e saem fora de suas limitações, faltando com a responsabilidade. Mesmo em caso de críticas, ela deve ser construtiva e nunca destrutiva, não devemos punir as pessoas e sim orientar. Jogar com a reputação de uma pessoa é muito grave. O que me choca é a falta de ética. Depois que se lança penas ao vento, juntá-las é difícil. Se uma pessoa merece um elogio, vamos elogiar, se ela merece uma crítica, vamos criticar; mas no bom sentido, até dando sugestões. Eu não concordo com o jornalismo maldoso, porque podemos destruir a vida de uma pessoa por um ato impensado.

 

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