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“A memória é o paraíso do homem.”, fala José Maria Correia

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José Maria Correia

 

 

Curitiba, 20 de janeiro de 1991. 

 

‘‘ A memória é o paraíso do homem.’’

 

Com o perdão do mestre Rubens Braga que abominava os memorialistas, não posso escrever à

Curitiba sem a evocação da memória, afinal dos seus trezentos anos,

quase cinqüenta me pertencem.

Pois é, há quase meio século esses caminhos são só meus desvios.

As esquinas que me viram jogando búrico e correndo atrás dos balões escondem solidárias

até hoje, os ecos de todas as minhas paixões.

Minha velha Curitiba, confidente única, a parceira do silêncio que comigo dividiu os roteiros

juvenis e secretos dos sentimentos mais ardentes e das lágrimas mais sinceras.

Com que saudades Curitiba, vejo ainda nas fotografias do imaginário, os lambaris  translúcidos povoando todos os rios da minha infância, os domingos de futebol

lotando campos verdes e tardes douradas.

Não, não esqueci  as manhãs de guarda-pós  brancos como marfim nos páteos do 19 de Dezembro, do Julia Wanderley e do Belmiro César, minhas professoras, musas da inocência, presença definitiva em meu coração.

Que tempos os do Colégio Estadual, onde o professor Pires Braga dissertava historia com a erudição dos raros e a elegância de um “gentleman”.

Ali na antiga biblioteca devorei toda a coleção de Jorge Amado e, com a sensação do proibido, “Os Subterrâneos da Liberdade”, que com outras obras era apreendido nas livrarias e queimado por um desses esbirros que por aí viveram como figuras menores suplicando favores e concessões dos tiranos de ocasião.

Tínhamos também nossos roteiros “underground”, a turma da Gutemberg, da praça, do Novo Ateneu e do Iguaçu; espiar as modelos posando nuas para os pintores nos porões da biblioteca, levar as namoradas nas mougues da universidade, libertar cães apreendidos na carrocinha, explorar os segredos das lojas maçônicas abandonadas foram proezas que conferiram status.  Depois vieram outras; corridas clandestinas e noturnas no autódromo, soltar o leão do Passeio Público, o que nunca funcionou, até que os tempos se

tornassem mais sérios, e os folguedos mais raros.

Quantos paralelepípedos arrancamos da Rua XV com as mãos, para as barricadas em defesa do ensino universitário gratuito em sessenta e cinco. Era a geração do mimeógrafo e do

spray contra a cavalaria e o cassetete.

Sou ainda um devoto e peregrino de todos os meus lugares santos, romeiro do Bar do Pasquale, do Triângulo e do Bar Palácio.

Procuro eterna e inutilmente o sabor do morango com nata, sobremesa dos domingos em que almoçava com meu pai no Bar Paraná.

Procuro meu pai, meus amigos, minha imagem caleidoscópica no quarto dos espelhos.

O furacão rubro-negro, as matinês do Curitibano,

o Osvaldinho fantasiado de Candelabro Italiano.

Meus velhos gibis trocados na porta do Cine Curitiba, o seriado do Sombra, do Fu-Man-Chu, as noites do Águas Belas, do Gogó da Ema e do Presidente.

Por onde andei sacralizei todas essas paredes antigas, portas cerradas de botequins que nunca mais se abrirão e escondem em seu interior vidros coloridos com os mais preciosos tesouros de minha infância, balas de ovos, de banana de Antonina, capilé, e  maria-mole.

É Curitiba companheira, só teus ouvidos conhecem meus desabafos etílicos, nas madrugadas de neblina e cuba-livre construímos juntos tantos castelos de areia.

Devaneios e ilusões a tudo vimos desfazer uma a uma, nenhuma fantasia restou.

Mudaram os meus caminhos, já não há margens em nossos riachos sepultados em caixas de cimento, o bosque da Hípica e do Cruzeiro se foram.

Dos velhos cinemas desaparecidos restam alguns cartazes desbotados, figurinhas coladas para sempre no álbum de minha alma.

Procuro ainda e desesperadamente meus mortos todos, esperando que renasçam ou que desmorram para me fazer companhia, pois sou muito precisado de cada um deles

para que a cidade volte à ser a mesma.

Procuro também os vivos e a coragem de gritar bem alto quanto eu os amo

e que a vida seria impossível sem cada um.

Procuro Curitiba, já que o tempo não volta e as pessoas não se desencantam, viver o que resta como mandou o poeta Rilke, vendo em tudo um começo e não um fim, como numa grandiosa gravidez, assistindo todas as manhãs a radiante parte da luz e acreditando que todos os elos, os amores, as ilusões e os seres perdidos ainda estão em cada um de nós,

pesam em nosso destino, zumbem em nosso sangue, emergem em nossos gestos e habitam e aliviam nossos sonhos.

Até sempre.

  

JOSÉ MARIA CORREIA

Delegado Geral da Policia Civil

 

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