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“Sempre te levarei na memória” escreve Walmir Ayala

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Walmir Ayala

Curitiba, 5 de maio de 1991.

  

Hoje resolvi te escrever, olhando de frente teu retrato impresso na lembrança.

Esta conquista de uma noção aproximada da tua natureza remonta à década de 60. Mais de trinta anos, uma vida.  Numa inversão temporal, foi só recentemente que avaliei tua postura, a perspectiva de teus espaços habitados, a generosidade de tuas trilhas,  teu desenho quase racional, não fosse ao mesmo tempo de uma poética vivenciada.

Com a maturidade dos anos que me conduziram ao que sou hoje, pude pensar tuas qualidades.  Compostura, contensão, discrição e um inequívoco mistério com que alimentas vampiros disfarçados e boêmios em pânico. 

Aparentemente te constituístes em seriíssima portadora de dons e prendas jamais domésticas.  O teatro, a dança de câmara, a ópera, os museus, oficinas, a grande disponibilidade participativa de tua instigante família, coisas do sangue e da adoção que distribui com sabedoria de educadora e mãe. 

Ouvi falar de ti pela primeira vez, pela boca de um gaúcho que te amou como o melhor filho.  Aquele incrível e raro Glauco Flores de Sá Brito. Lembras dele?  Eu não conseguia entender como ele superava o bairrismo e o grito do sangue, para te assimilar, e te entregar o suor o coração e a vida, permanentemente grato. Glauco era uma criatura sem sombra.  Foi ele que me ensinou o caminho da palavra do Dalton Trevisan, e a respeitar o passar arredio do homem sob a capa do escritor.  Pela mão de Glauco, estive muitas vezes contigo, por ele eu te senti humana, com ele eu desci aos teus porões e provei teu raro absinto do teu mistério.  Quando Glauco morreu, pousado em teu seio comovido, começava o grande transe da visualidade, da plasticidade de que me preencheu quase exclusivamente o espaço e o ofício.

Quase trinta anos depois, tu conduziste pela mão, ao meu encontro, um rapazola chamado André Seffrin, também gaúcho. No intervalo de um salão de Alcy Ramalho Filho, do qual era jurado, autografei livros para aquele jovem que entraria forte em minha vida. De leitor interessado e amigo, hoje meu braço direito e metade do esquerdo, sem o qual eu não organizaria com tanta tranqüilidade o tumultuado curso da minha vida literária.

O que mais posso dizer a favor da verdade deste encontro é que, com a família dele tenho passado meus últimos natais, o que vale dizer que na hora mais profunda, sincera e espiritual de cada ano, é com esta nova família que eu me distribuo e troco referências de afeto.E acho que isto só se tornou plenamente possível, porque tu Curitiba, me franqueaste o teu vale solitário.

De gaúcho, trancei este cesto de frutas e flores, incrustado de seres úteis e impositivos, neste apaixonante aprendizado de viver.  Por quantos nomes eu chamaria, se o espaço desta carta fosse aberto e virtual.   Artistas, marchands, críticos, fotógrafos, crianças, bichos, escritores, gráficos, poetas, livreiros, atores, editores, vivos e mortos, todos persistem delicadamente, como num teatro de sombras. 

Mas, não posso deixar de citar aquele inverno. O frio era tão intenso como a felicidade.  Meu filho Gustavo estava comigo e tu nos deixaste à vontade, em teus parques e estradas ponteadas de pinheiros. Aqui estão os retratos, Gustavo estava feliz se descobrindo em seus nove anos intensos. Eu me lembro que compramos ceroulas para suportar teu clima severo, o que não desfez em nada o clima interior de consumada primavera.

Depois ele me deixou para sempre, e ao recompor sua biografia de apenas 19 anos, lá estás Curitiba, com teus verdes gramados, teus azuis celestes, teus prédios nivelados, de organizada arquitetura, contendo nossos adeuses.

Foi a forma de te infiltrares definitivamente no meu ser mais profundo.

E tudo isto aconteceu num ritmo tão equilibrado, sem ranhuras, numa paisagem que tu sempre compunhas e recompunhas, como roupa branca passada a ferro em brasa, como gesto de amigo (amiga) que não extravasa, mas acolhe. 

Se escrevo agora, é para dizer que estamos indissolúveis, inconsúteis como predestinados.  É que sempre te levarei na memória, como uma folha verde que nenhum inverno sepulta, e que para além do meu limite humano estarás comigo, entre algumas outras preserváveis, na grande música da ressurreição.

 

 

WALMIR AYALA (in memorian)

Escritor

Poeta

Crítico da Arte

 

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